A Arte da Resistência

 
            Profa. Dra. Eliane Ganem


Este texto foi originariamente apresentado no “I Simpósio de Arte e Cultura da Diversidade: Poéticas do Cotidiano”, organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Arte da UFF.

           Para não me estender demasiadamente em conceitos que não podem ser entendidos rapidamente, quero apenas enfatizar aqui que qualquer investigação sobre arte e ciência supõe uma reflexão fundamental sobre a existência e que pode ser expressa na pergunta - “Quem sou eu?”. Como um corpo social, estamos voltados basicamente para essa pergunta fundamental também no sentido da nossa experiência cultural, ou seja, como conjunto coeso de interações, de necessidades comuns, de ideologia, de crenças, que fazem com que permaneçamos ligados por vínculos sólidos e princípios éticos inquestionáveis. A maior parte dessas ideias que nos tornam coesos faz parte da comunicação que é passada de consciência para consciência, formando um ego social forte e necessário à nossa sobrevivência.

            Comungamos mais ou menos as mesmas ideias estabelecendo normas, regras, leis e desenvolvendo uma ciência e uma tecnologia, assim como uma arte que confirme as nossas atitudes e crenças. Um exemplo disso foi a arte do século 20. Esta arte se forjou vinculada aos ideais científicos das ciências sociais, que teve como expressão máxima as novas teorias que transformaram o século 20 num laboratório prático para que a arte e a ciência caminhassem de mãos dadas.  As ideias revolucionárias marxistas, que identificamos como o centro do pensamento das ciências sociais do século 20, caminharam passo a passo com uma arte que chamamos de revolucionária, uma arte da resistência, uma arte engajada e promissora e que ventilava a busca de novos ares para a humanidade e, individualmente, para nós mesmos.

A expressão “resistência” foi cunhada por esta nova forma de compreensão do mundo. Borramos tudo de uma única cor – o vermelho – e definimos para nós uma posição única de estar no mundo.  Pelo menos no mundo Ocidental, a arte passa a se constituir como arte de resistência ao sistema, de resistência ao capitalismo, de resistência à exploração dos países mais adiantados, de resistência popular à arte de elite, à arte burguesa, enfim a arte resistindo à própria arte muitas vezes e criando barreiras que se tangenciavam, mas que dificilmente se imbricavam umas nas outras.

O olhar do século 21 nos permite fazer uma reflexão sobre o nosso conceito atual de arte e como precisamos nos desfazer desse “olhar” comprometido com as ciências sociais do século marxista que acabamos de deixar para trás. Inauguramos talvez uma nova percepção de mundo, uma nova ética, uma nova experiência mística do ser em busca de si mesmo, abandonando não a ciência, mas a resistência que nos impomos diante de ideais europeus, que  importamos.

No Brasil, não temos uma arte de museus, a não ser em um  sentido muito pontual – ou seja, aqui e ali, temos um Portinari, um Di Cavalcanti, uma Malfatti, uma Tarsila, e alguns outros poucos, mas não temos movimentos expressivos que tenham criado um acervo abundante e de qualidade realmente reconhecida não só por nós, mas também pela crítica internacional. Desde 1920, com a nossa famosa Semana de Arte Moderna, que não tivemos movimentos que pudéssemos chamar de expressivos para a nossa arte, fossem eles quais fossem. Mesmo que alguns “especialistas” apontem para o construtivismo, o concretismo e o neoconcretismo - da década de 50 - não temos de verdade, hoje em dia, um desdobramento proeminente desses movimentos ondulatórios nas artes plásticas.   Por isso, é de extrema estranheza quando grupos sociais utilizam expressões - arte de elite, arte de museus  - em contrapartida com a arte popular que criamos no meio das ruas – ou no aconchego de espaços pobres e comunitários - deste nosso vasto e extenso território nacional. Muitas culturas convivem e se harmonizam umas nas outras na diversidade que nos acostumamos a presenciar no nosso país. Chamamos de popular essa arte como se houvesse a contrapartida de uma outra  – a de elite – e que estaria confinada em museus e cujos artistas seriam aqueles realmente reconhecidos e cujas obras – seletas – colocariam a chamada arte popular em desnível social, como arte não reconhecida, e por isso mesmo uma arte da resistência.

Na verdade, no nosso país só temos esta arte que chamamos de popular. Inexiste no Brasil atual uma elite intelectual forte. Até a década de 70, procurando otimistamente estender para a de 80, tínhamos uma arte em alguns centros urbanos, como Rio de Janeiro e São Paulo, que podíamos chamar de erudita até, mas de uma “elite” que – ironicamente - tratava de temas populares, denunciando a exclusão social, do ponto de vista da ótica marxista. Hoje, se há uma elite intelectual erudita, apenas temos dela ainda conservados algumas pálidas espécies confinadas nas universidades, em alguns órgãos de pesquisa, em alguns setores tímidos que ainda teimam em preservar o patrimônio histórico, artístico e cultural de um Brasil que importava da Europa um imaginário que não era seu. E esse tem sido o nosso ponto de estrangulamento. Uma elite intelectual não deve vir atrelada apenas a uma forma de pensamento, pois com esse tipo de atitude acaba por pagar o preço do seu próprio aniquilamento, resultado do passar dos anos, do esgotamento de sua única crença.

Na verdade, até o século passado importamos da Europa a nossa arte. No teatro, por exemplo, Brecht mudou toda a concepção teatral, a dramaturgia, a forma de interação público-plateia, criando um teatro novo e revolucionário. O teatro da consciência revelou que a arte tinha um papel de transformação social que extrapolava o conceito de fruição estética da arte burguesa. No Brasil, tivemos textos de Oswald de Andrade – com o seu famoso Rei da Vela – eclodindo num teatro de vanguarda associado a uma luta de classes, contra a elite burguesa e a ditadura militar, que estranhamente, ao invés de proteger a burguesia - como seria de se esperar - na verdade perseguiu os seus filhos, torturando-os e, muitas vezes, eliminando-os ao longo de mais de duas décadas.

Enfim, herdamos literalmente as ideias revolucionárias da juventude europeia – da revolução russa até as duas grandes guerras mundiais – recebendo em nosso território um grande contingente de intelectuais jovens, que fugiram de seus países. Atores, diretores de teatro, que por aqui aportaram, trouxeram não só as ideias revolucionárias marxistas, mas também trouxeram a si mesmos, sua visão de mundo, sua resistência, seus ideais.

            Esse movimento se fez expressivo também na nossa música – as composições de Chico Buarque eram inteligíveis apenas para os iniciados que comungavam os ideais marxistas. Expressivo também na literatura, nas artes plásticas, enfim em todos os setores, já que a grande maioria dos artistas passou a utilizar a arte como o lugar da denúncia social, da resistência e do despertar coletivo.

Hoje em dia nos acostumamos a olhar o mundo ainda por esta ótica manchada da resistência. Ainda estamos resistindo, querendo que a arte popular seja reconhecida, protegida, valorizada e mistificada. Não nos perguntamos ainda do que se trata exatamente esse reconhecimento e por quem, e que arte é esta. Não nos preocupamos exatamente com a nossa arte e a qualidade artística dessa arte – já que essa conceituação é burguesa – mas com o que os artistas estão fazendo para tornar sua arte popular e assimilável pelas camadas mais carentes da população. E se esses artistas, ao se voltarem  para as comunidades carentes, realizam algum “trabalho de base” que possa contribuir com a melhoria do nível intelectual do povo.

Mesmo correndo o risco de expor um pensamento contrário ao que foi defendido no século passado, gostaria de deixar a minha contribuição no sentido de levantar uma questão que acredito primordial para o nosso entendimento sobre a arte popular. Na minha opinião, não existe hoje outra arte em nosso país que não seja a chamada arte popular. A velha dicotomia entre a arte burguesa e a arte popular, que levamos mais de um século cunhando, se mostrou estéril pelo menos na nossa realidade brasileira. Toda a nossa arte, da menos à mais expressiva, nasceu e se desenvolveu como arte popular. Como já disse anteriormente, mais do que felizmente, infelizmente não temos aquilo que se pode chamar de uma arte burguesa expressiva, uma arte de museu, uma arte erudita ou uma arte de elite. Digo infelizmente, porque a nossa resistência talvez nos tenha tornado menos ricos em nossa diversidade cultural e artística, moldando os olhos através do preconceito rude de um proletariado imaginário.

Por outro lado, esse fato nos liberta, e é exatamente isso que quero chamar a atenção aqui. É que não precisamos do reconhecimento do outro para que a arte popular se firme. A arte do outro também é popular, e ele também depende do nosso olhar para confirmar a sua importância cultural. A arte das ruas, das comunidades – carentes ou não - criadas dentro da necessidade de expressão da nossa constituição como povo, da nossa busca por uma identidade cultural diversificada, é a nossa única arte. Cheia de influências, de miscigenação de muitas culturas, muitas vezes desdentada e inapropriada. Muitas vezes expressa com palavras erradas, com erros de concordância, pintada com tinta de má qualidade, borrada, excessivamente diluída. Repleta de danças com um formato indígena, negro, caboclo, cheia de folguedos e intromissões, de cores e de um imaginário retirado dos muitos mitos que carregamos das nações que nos constituíram. Não há a quê resistir, não há o que reconhecer. Estamos todos já apropriados pela nossa brasilidade que reconhece o congado, o jongo, o maracatu, a capoeira, o bumba-meu-boi, as inúmeras cantorias e rezas das benzedeiras, os repentes, o cordel, a nossa irreverente facilidade de criar novas possibilidades baseadas em antigas tradições. O samba, as rodas de umbanda, as giras, os pontos cantados, a alegria e a tristeza que nos inspiram. Até mesmo no imaginário poético da nossa relação com o divino. Mesmo nas igrejas importadas – com santos que são, na sua maior parte, europeus. Ou então, com a importação e a apropriação das ideias de Lutero, Calvino, também europeus, e que seccionaram as igrejas para nos fazer pensar – hoje em dia – que cabe também na nossa diversidade esse jeito rigoroso dos ternos mofados e das saias pregueadas e compridas das mulheres beatas.   

Enfim, chamo a atenção para o fato de que no século passado importamos o nosso saber, a nossa imaginação, a nossa compreensão, a nossa política, a ética, a moral, a relação dos homens sisudos dos países frios, as roupas, as divindades, a literatura, a poesia, a pintura, os clássicos, os filmes, o teatro, a dança, o inconformismo dos povos europeus e chamamos tudo isso de nosso por um bom tempo.  E esperamos que esse nosso, como cobra criada, deite o seu olhar superior e reconheça o outro lado, aquele que passamos o mesmo longo tempo escondendo, quem sabe para podermos depois inventar aquilo que chamamos de resistência, criando assim o nosso próprio inimigo, lutando contra moinhos de vento que jamais existiram.

 Esquecemos que chamamos de nosso também os orixás, o carnaval, as escolas de samba, os gingados mulatos e toda uma cultura negra importada. E que não a qualificamos como erudita, já que permaneceu confinada nas senzalas. Mas que em outros países pode ser borrada com a capa sofisticada daquilo que é importado, exótico, diferente.

Enfim, a nossa arte é esta diversidade, presente no batuques das ruas, nos quintais das casas, nas tiras de papel repletas de poesia e penduradas nas cordas, no barro espremido entre nossas mãos caboclas – em esculturas torcidas como os filetes de alma que povoam os sertões.

E este meu depoimento tem a marca de uma artista que se sente um pouco um animal em extinção. Não faço parte desse popular, porque eu sou esse popular. Não levo a minha experiência para as comunidades carentes porque os meus livros penetram nas casas, sem discriminação. Este é o meu trabalho, como escritora. É sozinha, no silêncio da minha alma que se expõe ao mundo, que construo a minha identidade, o meu quem eu sou? É assim o caminho dos artistas, dos poetas, dos pintores, dos cantores, dos jongueiros, dos repentistas, dos capoeiristas, dos escultores, dos atores. Esta é a nossa conversa com Deus. Não porque o social precisa de nós, mas porque é na busca incessante do nosso próprio eu que nos revelamos ao outro e entregamos a ele o que temos de melhor. E então o social se revela como um coletivo de múltiplas expressões.

Na verdade, dançamos porque dançamos. Cantamos porque cantamos. Escrevemos porque escrevemos. Enfim, vivemos, mesmo que não haja motivo. E não há nenhum social capaz de explicar isso.

O que quero deixar claro aqui é que não precisamos mais nos apegar aos nossos inimigos, aos burgueses, ao capitalismo, ao estrangeiro, ao internacional. Não precisamos mais viver a divisão que criamos no seio mesmo de uma arte popular, seccionando-a de acordo com modelos inventados pelas ideias revolucionárias das ciências sociais do século passado. Afinal, já que não temos mesmo uma arte burguesa, podemos relaxar na nossa obscura missão de julgar a arte. Não precisamos mais gerar o ódio, a luta de classes, a resistência, o medo, a discórdia, as guerras exageradas, as dissidências, a corrupção de nossas almas envenenadas, a mídia do espetáculo, os sem teto, os sem vontade, os derrotados, os descamisados, os boias-frias. Não precisamos mais passar nenhuma demão de tinta em nossa paz de espírito, nem precisamos mais ser revolucionários, frios, duros e calculistas. E nem mesmo precisamos aprender uma forma de “não perder a ternura jamais”.

Não precisamos mais criar nem mesmo novos inimigos. Os que temos nos bastam. Precisamos agora reconhecer que não precisamos mais de reconhecimento. Que a nossa arte é única e toda ela popular. Que a resistência está fadada ao esquecimento. Estamos todos solidários no mesmo projeto que é enxergar a nossa brasilidade, não pelo viés do olhar estrangeiro, mas pelo viés da nossa diversidade, da nossa afirmação enquanto cientistas, artistas, espiritualistas e nação ávida por novos anseios, novas bases e um novo entendimento de si mesma.

Estamos recriando a possibilidade de aproximar a arte e a ciência, agora não mais no interior de uma concepção marxista, como foi a aliança entre a arte e a ciência no século passado. Mas agora uma aliança que requer autonomia artística, ou seja, a possibilidade da arte estabelecer seu próprio estatuto, mas ao mesmo tempo se colocando como alicerce de uma nova ciência, que pressupõe novos paradigmas para construção de um novo olhar científico. A arte e a ciência hoje – aliviadas da carga do passado - caminham de mãos dadas no projeto único de investigação da nossa brasilidade, do “quem somos nós, realmente”.  E esse é um projeto capaz de nos revelar a nossa verdadeira face, de recriar a nossa atual identidade e de estabelecer para nós mesmos os nossos próximos desafios.

A arte, aliada às novas possibilidades de uma ciência que se argui a si mesma, atribuindo a si mesma uma nova consciência, será talvez o ponto de transformação necessário para a inclusão social de todos. Talvez a menina dos olhos do século 21 seja esse florescimento da consciência, e da possibilidade que temos de perceber que condicionamos a nossa forma de existir e de nos inserirmos no mundo ao roteiro que nós mesmos podemos construir para as nossas experiências artísticas, científicas, filosóficas e místicas. Na verdade, o que nos acontece não é fruto apenas das oportunidades deste planeta, mas das oportunidades que a nossa consciência busca, nesse afã que temos de estabelecer uma comunicação interior espiritualmente rica, e que é nomeada por nós como arte e ciência. Mas que também cria para nós a nossa própria prisão, caso não tenhamos a clareza de que se tratam de conceitos, ou como diz Foucault, tão apropriadamente, “de palavras e coisas” ligadas por similitudes e analogias que nós mesmos criamos.

A Saúde do Ser

 

 Eliane Ganem

 

Este trabalho é parte de um outro maior, cuja proposta fundamental é a de inaugurar um novo campo de investigação dentro da Teoria da Comunicação, não mais em seu aspecto social, mas agora voltado para a comunicação interna que o ser estabelece consigo mesmo.

Quando se fala em Saúde do Ser, precisamos estabelecer alguns critérios para avaliarmos algo tão subjetivo. O saúde não é algo que se passa apenas no corpo físico. O que pensamos, como funcionamos mentalmente, como atuamos no dia-a-dia com os nossos sentimentos, como superamos problemas, avaliamos nossos atos, absorvemos as dificuldades nos relacionamentos, no trabalho, nas atitudes dos outros, na vida, são fatores poderosos para definirmos se alguém tem mais ou menos saúde. Portanto, a saúde do ser envolve algo que nem percebemos, mas que significa a amplitude do nosso universo interior, em geral abordada exaustivamente por grupos espiritualistas.

Ter contato com o nosso universo interior pressupõe um aprofundamento na nossa forma de pensar, na nossa forma de atuar, de sentir, de viver. Por isso, a Comunicação Transpessoal já nasceu equipada de fundamento “espiritual”, porque investiga aquilo que tem sido relegado ao plano do invisível e, por isso mesmo, de difícil acesso para a ciência. No entanto, foi a partir do desenvolvimento da Psicologia Transpessoal que a Comunicação pode expandir seus critérios científicos para a mente humana.

Na Comunicação Transpessoal não nos preocupamos mais em qualificar ou identificar os processos que envolvem a comunicação entre um ser e outro, entre máquinas ou até mesmo entre seres e máquinas, mas nos atemos exclusivamente na Comunicação que estabelecemos internamente. Essa comunicação silenciosa, mas incessante, que a nossa mente executa ininterruptamente com os muitos seres que habitam o nosso plano mental.
É importante salientar que, ao contrário da Psicologia, a Comunicação Transpessoal não está interessada em associar as diferentes respostas do ser ao plano das patologias. Apenas identificamos que  aquilo que o ser comunica a si mesmo são formas de contato, que ele é obrigado a desenvolver, e que tem origem na sua necessidade de ordenar o mundo elaborando respostas para as suas experiências ao longo dos anos. Essas respostas, ou seja, o corpo de atitudes, pensamentos e diálogos internos, vão formar finalmente um sistema coeso e coerente que chamamos de ego.

Portanto, ao se investigar a Comunicação Interna do Ser com ele mesmo, estamos na verdade investigando dois tipos de comunicação – a do ego e a do eu – e as diferenciações entre cada uma delas. Nesse sentido, um trabalho que inclui a consciência no próprio corpo da investigação, precisa levar em conta a consciência do investigador no processo. Por isso, usou-se como instrumental de trabalho e de pesquisa, alguns elementos emprestados da Física Quântica -basicamente o conceito de processo e energia – e também alguns sistemas elaborados pelos filósofos orientais – e que nos remeteram para aquilo que chamamos de experiência mística. E, finalmente, nos voltamos novamente para o Ocidente, fazendo a ponte necessária entre o pensamento oriental e o pensamento ocidental, através dos mais importantes pensadores do Ocidente – buscando compreender o ser, mesmo que do “canto do olho”, como sugere Sartre em seu livro “A Transcendência do Ego ”.

          Tendo sido compreendido no Ocidente como algo menor, algo que não dava conta da realidade objetiva estudada pela ciência e da realidade subjetiva  estudada pela  filosofia, a experiência mística ficou sempre relegada aos limites  inapropriados da  fé religiosa. No entanto, como o próprio nome diz, a experiência mística não supõe a fé, já que a fé, na verdade, nasce da incerteza, nasce da necessidade de atribuir ao outro, ou a alguma entidade, a salvação da alma e/ou a cura dos males. Enquanto que a experiência mística só existe como descoberta do ser em direção a si mesmo, ou seja, quando a fé se transforma em confiança (pistis) e que Jung compreende tão bem em seu comentário psicológico na Introdução do “Livro Tibetano da Grande Libertação”. Nesse sentido, esse movimento pode ser chamado de religioso, mas está para além das igrejas e dos dogmas. Devendo ser vivido e experimentado  por todos aqueles que, em  busca da verdade, procuram  na ciência, na religião, na arte, e em si mesmos, respostas satisfatórias para a  sua existência no mundo.

Por isso, qualquer investigação sobre o ser propõe uma reflexão fundamental sobre a existência e que pode ser expressa na pergunta -    "Quem sou eu?".  A identificação de um ego social e um desdobramento  desse ego  em partes,  pressupõe uma comunicação entre essas partes.  Portanto, a comunicação que estabeleço com os múltiplos "seres" que habitam o espaço psíquico que ocupo parece  fundamental  para que haja uma compreensão  mais aproximada  desse ser que investiga a si mesmo através desta pergunta inicial.

Por isso, ao investigar o ser é necessário investigar a comunicação dos múltiplos seres que parecem habitar este alguém indivisível e único que chamamos de eu.  Portanto, ao que parece, é na comunicação interna que podemos ter um  vislumbre do nosso eu. É na exclusão, talvez, daquilo que não é o ego, que podemos chegar a esse ser que chamamos de eu.

.Na Comunicação Transpessoal há a intenção de pesquisar algumas das diferentes  formas de comunicação do ser  com ele mesmo, a partir do signo linguístico, das construções semânticas, da análise de imagens mentais, dos processos psíquicos, buscando  na Teoria da Comunicação instrumental necessário à análise dessas partes constituintes da personalidade e daquilo que chamamos consciência.

Para Sartre, é a consciência que cria o eu, e não ao contrário. Em “A Transcen-dência do Ego", ele afirma que “Não há conteúdo de consciência, não há o que na minha opinião, é o erro de Husserl, sujeito por detrás da consciência(...) há unicamente de alto a baixo, consciência”. Essa abordagem de Sartre é semelhante à abordagem que os místicos orientais fazem quando se reportam à Iluminação dos Avatares e Mestres. Para eles, a consciência tem vários níveis e tende a ser superada constantemente até que o ser chegue ao máximo de seu desenvolvimento. Nesse ponto, a Iluminação seria um estado sem ego e sem eu, de alto a baixo consciência, sem representações, sem significados, mas em bloco, direta, sem mediações e filtros sociais. Ou seja, uma consciência em que há uma ruptura entre os seres interiores, interrompendo, portanto, o processo de comunicação. Rompido esse processo de comunicação, um novo estado de ser acontece - é a Comunhão que esta consciência estabelecerá com o Todo.

No livro “Alem do Ego”, de Roger Walsh e Frances Vaughan, temos que consciente e inconsciente não são eternos e imutáveis:

"O que é inconsciente e o que é consciente depende da estrutura da sociedade e dos padrões de sentimento e de pensamento que ela produz. O efeito da sociedade é não apenas canalizar ficções para a nossa consciência, mas também evitar a percepção da realidade. Toda sociedade determina as formas de percepção. Esse sistema funciona, por assim dizer, como um filtro socialmente condicionado; a experiência só chega à percepção se puder passar pelo filtro". (p.120)

Ou seja, o que pensamos, o que vemos, o que escutamos é aquilo que é socialmente aceito. Não temos a capacidade de ver, sentir, atuar e pensar aquilo que o nosso código social não permite. Ou seja, ao selecionarmos um conjunto de frases quando falamos, escrevemos ou pensamos, não nos damos conta de que estamos procedendo a rapidíssimas seleções de signos, numa ordem organizativa prescrita pelas normas do sistema. Não nos damos conta realmente desta seleção porque  o processo já está  automatizado.

Uma forma de romper com esse diálogo interno que nos oblitera e nos reduz a meros atores sociais, é a introdução da meditação em nossas vidas. É uma das formas que temos disponíveis para fazer com que nossa mente opere de modo diferente daquele que estamos acostumados.

O objetivo da meditação é interromper o diálogo interno entre o eu e você que nos desorienta, oprime e muitas vezes nos escraviza em um único ponto de vista. O que falamos internamente, o que escolhemos para nós através de palavras, frases e conceitos, cotidianamente repetidos, é aquilo que nos tornamos. Por isso, ao se interromper essa enxurrada de elementos – às vezes até mesmo contraditórios – em nossa mente, em nosso sangue, artérias, veias e órgãos, podemos modificar substancialmente a nossa realidade interna no plano físico, mental, emocional e espiritual.

O objetivo da meditação é interromper aquilo que nos tornamos abrindo possibilidade para que o verdadeiro ser interior renasça. Os nossos conceitos, preconceitos, dúvidas, negatividades, pensamentos, sentimentos são resultado de uma sociedade escravizada, que não conhece a si mesma, que não permite que cada um de nós conheça a si mesmo, que não oferece outra realidade a não ser aquela determinada pela negação do eu em detrimento do ego. E isso vaza para todas as instâncias, até mesmos para aquelas que se dizem espirituais, porque estão no interior desta mesma sociedade, sem recursos disponíveis e apropriados para romper definitivamente com aquilo que os oprimem. Outras, nem mesmo estão interessadas em romper com nada. Pelo contrário, fazem parte do grande contingente que não pretende jamais romper, mas se favorecer da alienação de todos.

Por isso a meditação é revolucionária. Ao interromper o pensamento viciado, introduz a limpeza do espírito que se ilumina e passa a comungar existencialmente com tudo e com todos. Esse é o principal fundamento da espiritualidade. Não servir à sociedade, mas servir ao interior de cada um como se cada um fosse o retrato do nosso deus interior.

Cassirer, em sua “Antropologia Filosófica”, afirma que “a ciência é o último passo no desenvolvimento espiritual do homem e pode ser considerada como a mais alta e mais característica conquista da cultura humana.”  Para ele, antes dos pitagóricos e dos atomistas, inexistia qualquer concepção científica e esse modo muito particular de olhar e investigar a realidade. Foi após a Renascença que a ciência se estabeleceu, criou a base que sustenta hoje essa forma particular que o Ocidente criou para lidar com as questões fundamentais do homem. Provavelmente porque a filosofia sozinha não conseguia romper com a imensa e intricada malha que a sustentava, a ciência inaugura a experimentação sistemática e metódica, ou seja, nos proporciona a segurança de fixar pontos de apoio para que possamos acionar a alavanca do conhecimento.

No século XVIII, com o rompimento entre o Estado e a Igreja, inaugura-se esse campo neutro de investigação precioso. Naquele momento era necessária a criação dessa neutralidade  exatamente para impedir o assassinato em massa que o cristianismo ainda provocava em nome de Deus e da legalidade espiritual. No entanto, passados já alguns séculos, o pensamento cartesiano tem se demonstrado falho em algumas questões que a própria física quântica, por exemplo, tem tentado solucionar. A própria Arte possui um campo de conhecimento subjetivo incontestável. Não é à toa que a maior parte das investigações nas ciências humanas e sociais partiram – e partem ainda – de obras de escritores clássicos, como os livros por exemplo de Tolstoi, Balzac, Shakespeare, etc.

Hoje inauguramos uma nova ciência, aquela que tem alargado seus paradigmas para a investigação de processos invisíveis, voltados para a geração de energia. Essa investigação, exatamente por ter ainda um caráter subjetivo, é reforçada por outras instâncias que até os dias de hoje permanecem alijadas de alguns grupos científicos mais tradicionais. Uma dessas instâncias é a arte, como aproximação possível, como ponte de acesso a campos de saber aparentemente distantes.

A arte, a ciência e a espiritualidade formam três campos de conhecimento autônomos, mas que tendem a se aproximar nessa nova convergência de saberes. Quando falamos em espiritualidade, lembramos que somos todos seres espirituais. Por isso as teorias que excluem a possibilidade de estudar o ser em sua plenitude estão fadadas ao desaparecimento. A ciência não pode mais relegar ao plano das igrejas o autoconhecimento. Na verdade, quando um cientista se entrega a uma investigação, o seu modo de olhar, suas experiências anteriores, sua visão de mundo, suas crenças podem interferir diretamente nos resultados da pesquisa. Por isso, a física quântica tem introduzido a consciência do investigador como um elemento do processo de investigação. E é por isso que esta nova ciência tem se alargado na construção mesmo de uma Ciência do Ser.  

Além da Física Quântica, a Psicologia, a Comunicação e algumas outras ciências têm trabalho com a imaginação no campo das realidades. É necessário  que a Ciência do Ser se amplie na direção de uma investigação que leve em conta processos até hoje desconhecidos. É importante entender que aquilo que não é natural não precisa ser necessariamente sobrenatural, e é por isso que ao se alargar os paradigmas desta nova ciência alargam-se também os campos de investigação, inclusive para processos até hoje inexplicáveis.

Nesse sentido, falar em Saúde do Ser, pressupõe-se uma investigação sobre o que é o ser.