Marina do Poeta


 
Eliane Ganem
 
 
      Na Marina do Poeta, os seus olhos me encontraram, me deitaram sobre a relva fina que brotava aos nossos pés, logo adiante, como se o mar fosse um tapete de grama prateada, onde a lua desfilava intacta e bela. Foi rápido o tempo que ficamos na espera, da inebriante vontade de deitar no silêncio das noites descobertas. Sob o ardente encontro dos nossos sonhos amantes, a lua, minguante, se estirava em nosso colo, cansada de tantas madrugadas repletas de versos.

Fiquei devendo talvez a possibilidade de você me amar demasiado. Fiquei devendo talvez a possibilidade de deitar com você no espaço e dançar sobre o tapete deslizante do mar, equipados com as asas dos anjos que nos amparavam alegres. É um desperdício deixar que as sombras do nosso passado tão iluminado, se perca. É um desperdício até mesmo tentar aprisionar aqui - entre palavras tão pouco fiéis - o nosso caso desfeito.

Pena que tudo seja tão apavorantemente fugaz, tão infinitamente pequeno, e que você tenha permanecido como o melhor dos amigos deste ano inteiro. E que você tenha permanecido como o melhor dos cativos desse encontro, do qual conservo o seu cheiro, o meu abandono, o seu medo, o terror em te perder quando você vinha ao meu encontro, o seu jeito de homem dengoso, o meu estranho desejo de querer te ensinar a viver – como se eu soubesse. Me lembro também da sua vergonha, como se no conforto dos meus braços você expusesse pedaços, que às vezes interrompiam nossos afagos tão íntimos para se estender em íntimas conversas. Me lembro também do seu pequeno apartamento e o nosso cheiro que impregnava as cobertas, as madeixas molhadas do suor dos meus cabelos, dos seus cabelos, dos seus abraços misturados aos meus afetos. Me lembro também dos telefonemas extensos, das vezes em que corri na sua direção como se você fosse um antigo companheiro.

Ah, como a lua ficou impregnada de vontade, como se dela tivesse sido arrancada a nossa parte nesse pequeno espaço que ocupamos. Como se todo o universo fosse marina repleta de nós. Como se todo o espaço entre o mar, a areia onde deitamos a nossa história, e o nosso olhar que mirava as estrelas com o conforto plácido dos que erram, ficasse banhado pela luz azulada que a lua ainda lança em minha memória. E é você, clareado de um rompante de amor singelo, de uma enternecida história que jamais acaba, de um adeus que ficou no ar, é você que ficou parado como os acenos das imagens de infância, que ainda permanecem. Me lembro das nossas melhores noites de rimas, do pessoal que vinha nos assistir, como se o motivo principal fosse usufruir do amor que rodeava o nosso encontro, e não os versos que deveriam levar tanta gente ali. Era bonito ver quando você me encontrava, quando o seu perfume tocava o meu repleto de mulher. Então tudo sumia, o chão, a multidão, o microfone, os risos, as palavras, os desencontros dos que partiam, a balbúrdia dos que chegavam. Nem mesmo o mar ficava, quieto demais, talvez esperasse por uma deixa, uma onda que pudesse sobrepujar o nosso silêncio amoroso, o carinho ousado do nosso olhar um no outro, o brilho exagerado que contornava a todos, como se todos estivessem partilhando do imã vibrante que nos aproximava. Somente a lua ousava permanecer, destemida e cúmplice , e era tanta ousadia, tanto olhar surpreendido, tanta falta de juízo, que até os versos se perdiam diante da real poesia que rolava das nossas bocas que se beijavam.

E seria mais amplo esse nosso encontro, se tivesse a mesma dimensão do intenso transe que passamos juntos diante da lua, debaixo das cobertas do meu quarto. Só que, de repente, e apenas só de repente, algum motivo escuso te afastou de mim. E então, quando o passado já havia deitado seu manto desesperado, e a lua tentava não se esvair de todo, nada mais havia na marina que não fosse a ausência de um possível encontro. E me defrontei com o seu jeito infiel de viver pela metade o que a vida lhe dava com um transbordar de excessos. E também com o meu sôfrego dilúvio interno, me deixei poupar por inteiro do teu inconveniente jeito de se afastar de mim. Os desencontros de uma situação que acabava, deixando lugar a uma cruel despedida, como se virar amigo fosse coisa pensada e decidida. E ficamos com essa interrupção nos maltratando, com essa rapidez distorcida, com essa atitude que mascara a nossa verdadeira vontade de viver o que ficou perdido.

Tanto tempo depois, e eu aqui no devaneio do que podia ter sido. Tanto tempo, tanto descaso, tanto ato esquecido, tanta palavra vertida, tanto verso abandonado, como os mendigos que abandonam suas tralhas. Economizamos na poesia, ávidos de agonia. Talvez seja esse o meu desmazelo diante do olhar que te lanço. Talvez seja esse o confronto que não ousei desvendar com a tua partida. E a lua, velhaca, agora ri em meu rosto, escarnecida. Vem – ela me diz - mais um pouco, e o teu corpo lamberá os escombros do infortúnio, enquanto a tua alma rendida e seca verterá em direção ao acaso, iludida por antigas palavras vazias. E quem sabe, esquecido o desprezo contido que lançamos um em direção ao outro, o nosso amor um dia possa resplandecer como os lírios na lama pútrida emergem em direção à lua, novamente atraídos. E quem sabe, os versos que não deram em nada, possam ser aproveitados em outra obra, talvez mais perfeita.

Por enquanto, muito longe do adeus, devo me despedir até qualquer outro dia, quando eu puder erguer novamente o olhar e encontrar ao meu lado a sua mão, o seu jeito carinhoso de me beijar o rosto, o sorridente encontro da nossa natureza que ama além do que deveria, a sua impaciente incompreensão de si. Estender o braço, rodopiar como as crianças envolvidas no abraço, me alegrar apenas com a nossa eterna despedida. E abandonar a esperança de te ter novamente em minha cama, rejeitando a lua que distraída passa - como se eu não fosse mais o seu alvo preferido - e mais uma vez esquecer as antigas possibilidades, me deter em seus braços e chamá-lo de amigo.

Literatura para Crianças e Jovens - parte 1


 


A Produção da Criança


 

 

Antes de estabelecermos as estratégias que podem ampliar significativamente o número de leitores no Brasil, precisamos em primeiro lugar determinar melhor a que tipo de leitor estamos nos referindo. Pelo seu vasto território, pela diversidade cultural que encontramos nas diferentes regiões do país, pela incapacidade que os governantes têm demonstrado em gerenciar com competência a questão da educação fundamental, pela dificuldade em determinar o que é realmente melhor e não aquilo que é mais conveniente para a formação de novos leitores, proponho que em primeiro lugar seja definido o nosso público-alvo.  
Precisamos desenvolver o hábito de leitura em que criança, em que momento? Onde, mais especificamente? Que classe social? Que faixa etária? Crianças do interior, da periferia, dos grandes centros? Nacionalmente, regionalmente? De que modo?
É importante, portanto, que estabeleçamos alguns limites para o nosso objeto – criança – e as possibilidades que temos de realmente interferir na sua formação como leitores.
O segundo passo é determinar que tipo de literatura está sendo destinada a essa criança e como ela tem sido consumida pelo nosso público-alvo. Se essa literatura atende às necessidades atuais dos nossos jovens e se ela está a serviço de uma autêntica busca intelectual pela arte. Ou seja, será necessário voltar a atenção para a chamada literatura infanto-juvenil, procurando entender o seu papel na formação de novos leitores, e como isso tem realmente acontecido.
Mais que o livro didático, os programas pedagógicos e os quadrinhos, a literatura infanto-juvenil possui uma legitimidade cultural crescente, apoiada na universidade, nas escolas de 1o e 2o graus, na crítica especializada, no movimento editorial, nas academias literárias, na psicologia, na pedagogia e na educação. Possui, portanto, uma legitimidade que extrapola a própria literatura , enquanto arte e expressão. Não é apenas arte, mas cumpre o papel de facilitador na formação moral e social de um contingente expressivo de seres que precisam de moldes para a sua atuação no presente e no futuro.
Por isso, embora se queira como obra de arte, como prática estética, a literatura infanto-juvenil dirige-se a um público leitor especial. Na verdade, escritas para serem lidas por crianças e adolescentes, essas obras estão orientadas por uma temática e um estilo que definem, determinando, o próprio público leitor. Pensam por ele ou como ele deve pensar e mais legítimas e consagradas são quanto mais próximas fiquem do que o ambiente cultural dominante estabeleceu ou vem estabelecendo para esse ele. Ele é uma criatura definida como “criança”, determinada como tal e historicamente produzida. A família, a escola e uma cultura voltadas especialmente para essa criatura cumprem, ao mesmo tempo, o papel de determinar seu ser – como “ser em formação” - e pô-la em condições de assumir as responsabilidades que virão “para valer”, na vida adulta. Nesse sentido, antes de ser dirigida à criança, a literatura infanto-juvenil é dirigida (e produzida) por um discurso suficientemente adulto, maduro e criterioso.
À diferença da literatura para adultos, com sua própria história de estilos, narrativas e temáticas, a literatura infanto-juvenil construiu-se num lugar híbrido, fronteiriço com a didática e o moralismo, ambicionando alcançar uma validez estética enquanto obra literária e/ou plástica, com seus próprios cânones ou aqueles tomados emprestados à chamada grande literatura. É, no entanto, no modo como é determinada enquanto literatura para crianças que se encontra, sobretudo, sua especificidade, pois busca atender às expectativas dominantes em relação à criança, reproduzindo-a como natureza humana infantil, tornando-a exemplar da verdade infantil. Deste modo, apresenta-se também como um discurso dessa verdade, que seleciona temas de um tipo determinado e de uma maneira típica tida como “natural” e “verossímil” de tratar esses temas.
Mais que qualquer outra literatura de ficção, a literatura infanto-juvenil pode funcionar adequadamente na reprodução de uma determinada ordem social, a um nível só comparável aos manuais didáticos, às enciclopédias de vulgarização, ao bom senso intelectual das colunas de jornal, às revistas de domingo, aos livretos de conselhos médicos e sentimentais, aos almanaques de farmácia. Obtém, por outro lado, uma eficácia incomparavelmente maior, dado que, ao contrário daqueles discursos, cuja legitimidade advém de um ponto de vista pretensamente “objetivo” e “técnico”, a literatura infanto-juvenil vem legitimar-se não tanto pelo seu conteúdo ideológico, mas pela sua “forma”, isto é, por ser considerada pelo seu valor estético.

         Como sabemos, investigações historiográficas muito cuidadosas no campo da história das mentalidades, vêm desenvolvendo a tese – colocada no estrito plano do “sentimento de infância”-  que a “criança” é uma invenção do século dezoito, ou do final do século dezessete. A partir do trabalho de Phillipe Ariès - “História Social da Criança e da Família”, outros especialistas, seguindo ou não orientações estritamente historiográficas, vêm defendendo esta hipótese e a aprofundando em várias direções, entre as quais a da literatura para crianças.

Considerando o conjunto desses materiais, cuja importância vem a cada dia aumentando, partimos do pressuposto que a “criança” é uma formação social e histórica particular, determinada pelo conjunto de relações sociais no interior das quais pode ser personificada e reproduzida. Não importa para a definição de criança as diferenças existentes no interior do grupo, como sexo, classe social, etc., desde que essas diferenças se encontrem determinadas pelo mesmo modo de classificação, deslocado para cima ou para baixo segundo o critério da faixa etária. Portanto, se temos que classificar o universo infantil, dispensamos as diferenças - sejam elas quais forem - e utilizamos apenas o critério de faixa etária.

Seguindo a obra de Ariès e de outros estudiosos do assunto, vejamos como esse fato aconteceu.

 

Separação progressiva da criança do mundo do trabalho


 

Percebem-se aqui três movimentos distintos: na antiga sociedade agrária, que se estende na Europa até o início do século XIX, adultos e crianças estão misturados às tarefas agrícolas ou artesanais e, embora subordinadas, as crianças desempenham importante papel econômico nessas comunidades. No período de acumulação primitiva do capital e da revolução industrial, as crianças, como os adultos, eram atiradas às fábricas para jornadas de trabalho que excediam, muitas vezes, 14 horas diárias. No entanto, no mesmo período, as crianças da classe burguesa já se encontravam inteiramente separadas da produção, freqüentando os colégios e se preparando para seus futuros papéis na gestão econômica. De meados do século XIX em diante, o ideal burguês da infância se estende para as demais classes sociais, verificando-se a progressiva separação da criança do mundo do trabalho e sua crescente colocação na escola.
De uma posição secundária e indiferente na organização familiar até meados do século XVI, dominada então pela figura do “pater famílias”, a criança vem assumindo progressivamente o papel central na ordem familiar, em torno da qual reorganizam-se também os papéis adultos. A separação entre adultos e crianças desenvolve-se com a escolarização, simultaneamente ao desenvolvimento de uma moralidade que até então não havia. Este novo comportamento passou também a interferir na sexualidade infantil, inaugurando aquilo que podemos definir aqui como um padrão assexuado de moral infantil.
Com o desenvolvimento do “sentimento de infância”, que começou a acontecer a partir do século XVII, crescem no século seguinte - junto com os colégios e com a nova classe social emergente -  as preocupações pedagógicas com a criança e a separação entre o que deve ser acessível e o que deve ser proibido para ela, inclusive no próprio discurso. Divide-se o discurso e a fala cotidiana em duas partes: uma reservada aos adultos, outra permitida e reservada às crianças. Toda uma pedagogia e psicologia infantil se desenvolveram a partir desta modificação ocorrida na educação. Toda uma nova atitude social começou a se desenvolver em relação à infância. Não faltaram “especialistas” nesses assuntos, inaugurando uma nova ética que assegurasse a insurgência dos novos valores.
Hoje a criança assumiu um papel inverso no seio da família. Jurandir Freire Costa, em seu conhecido livro “Ordem Médica e Norma Familiar”, abordou o tema do ponto de vista da constituição familiar brasileira desde a época do colonialismo até os dias atuais. No momento em que o núcleo familiar deslocou-se do regime patriarcal para a criança, criaram-se vínculos de proteção do adulto em relação a ela, que a tornaram dependente. Apesar de parecer contraditório, essa dependência, que se processa em todos os níveis – econômico, moral, emocional, etc. – está intimamente ligada ao fato da criança ter se deslocado do papel secundário em que permanecia até o século XIX para o ponto central das atenções.
Essa dependência e essa pseudoproteção, que tem se desenvolvido em torno da criança, remetem ao mesmo aspecto de uma só questão: a dominação da criança, pelo adulto, enquanto identificada como “ser em formação”. Uma dominação de base social, que se inscreve no interior de um discurso utilizado pela família e pela escola, e que tem a sua origem no controle que os “especialistas” procuram exercer sobre o universo infantil.
A educação passou, nesse sentido, por muitas etapas. Da repressão, aos modelos mais modernos de controle, chegamos ao momento em que a criança se tornou responsável pelos seus próprios atos, já que agora havia toda uma técnica de persuasão através do diálogo. A criança passou a ser chamada para dialogar com seus mestres e pais, num patamar de argumentação voltado para a lógica dos tempos modernos. A formação da criança começou a ser canalizada para um discurso de dominação, que se estende até hoje, pois se observarmos bem, ora lhe caçam a palavra e ela se vê alijada do meio adulto, ora a aceitam e a aprovam se o seu comportamento estiver de acordo com a definição de “infância”, de acordo com o tipo de criança que elegeram como modelo.
         Nesse sentido, a história da criança se realiza plenamente quando chega a produzir-se como o “eterno infantil”. Sua função é, em primeiro lugar, a de uma orientação didática que possibilite “a confirmação daqueles valores morais decisivos para a educação burguesa, assim como a transmissão de conhecimentos (científicos, técnicos, históricos, organizacionais) necessários à preparação da atuação social do adolescente.”(COSTA, 1979, p. 15) (1)
Essa nova classe social – a burguesia – dispõe também, a partir do século XVIII, de recursos políticos que abrem novas possibilidades de manipulação. A queda da monarquia, o advento da república, a própria democracia ocidental, a medicina higienista – que diminuiu drasticamente a mortalidade infantil - tudo isso leva agora a uma nova atitude diante das leis e da moralidade. O discurso “liberal” se inscreve entabulando – inclusive com a criança - um diálogo monologal, em que só a voz da nova ordem se expressa. Todos querem compreender, participar das novas idéias, dos ideais dessa nova classe social.  A partir daí, constrói-se também uma literatura própria, especializada, que pretende dar conta dos anseios desta nova criança fabricada e reproduzida nos livros, nas revistas em quadrinhos, nos brinquedos, nos jogos, no cinema, na televisão, nos discos, nas roupas, num universo específico criado exclusivamente para ela, e que compõe toda uma indústria do infantil.
           Portanto, é a criança burguesa, treinada para entender o discurso e os argumentos dessa nova lógica, que irá se impor como modelo para as crianças de outras classes sociais. O aparato familiar, e também o escolar, atuarão e reagirão de acordo com esse modelo, imposto e arbitrado, associando-se assim a infância com esta criança universal, para a qual estão voltadas as esperanças da sociedade moderna.
Portanto, nas oito séries do 1o grau, tanto nas escolas particulares quanto nas públicas, o currículo unificado parte desse princípio básico, determinando que todas as crianças, de todas as classes sociais, têm as mesmas experiências de vida e as mesmas necessidades – mesmo que haja um apontamento para se guardar as diferenças regionais. O currículo, em geral, determina, além das cadeiras obrigatórias, a inserção de outras atividades comuns a todos. O tratamento pedagógico dispensado tanto numa escola quanto na outra, conservada as mínimas diferenças didáticas, são semelhantes. Se antes assistíamos a uma escola de base explicitamente autoritária, hoje podemos perceber que esse autoritarismo escancarado, mascarou-se. O diálogo monologal, a que nos referimos anteriormente, é legitimado pela pedagogia e a psicologia moderna, com brilhantismo. Um novo estatuto, este também autoritário, baseado no slogan da “liberdade com responsabilidade”, introduz a autocensura, ameaçando cada aluno - crianças e adolescentes – com as armas que o próprio sistema disponibilizou para elas. A base do autoritarismo é a mesma, no entanto mais sofisticado, mais apurado e menos condescendente. A criança, na escola, seja ela de que classe social for, tenha ela necessidades distintas ou não, terá que se ajustar e se acomodar ao que lhe é dado, sem nenhuma possibilidade de comparação – sem a possibilidade de se espelhar em outros modelos - já que não lhe são oferecidas outras alternativas.
Enquanto o menino de classe média encontra, na família, o seu correspondente escolar, os das classes menos privilegiadas estão longe de ter algum tipo de modelo familiar parecido com aquele que a escola pretende para eles. Se antes, o filho de um operário de formação pequeno burguesa, procurava alcançar o modelo proposto, hoje – com um grande contingente de menores abandonados e de famílias dilaceradas pelos novos hábitos sociais dos grandes centros – não têm nem mesmo motivação para galgar um lugar social mais elevado. Na tentativa de minorar essas dificuldades, as escolas públicas e particulares da periferia e dos grandes centros urbanos oscilam entre o autoritarismo à antiga, quando os valores morais eram preservados ao máximo, e as novas concepções de liberdade impostas pelas teorias atuais.
A família aí se constituirá também a partir das contradições que há muito perturbam as classes mais abastadas, abalando já os papéis sociais desempenhados pela mulher e pelo homem, de forma definitiva. O homem, provedor das necessidades econômicas, e a mulher, sustentáculo da unidade familiar, praticamente não existem mais. Hoje a mulher ocupa um lugar de maior importância no mercado de trabalho, atribuindo a si mesmo funções que antes eram exclusivamente masculinas. Já o grande contingente de crianças provindas de morros, favelas ou de locais semelhantes, geralmente filhos de subempregados, profissionais desqualificados, biscateiros, empregadas domésticas, colonos e operários de uma indústria de exploração máxima - como a indústria da construção civil, por exemplo - representam a maior parte da população brasileira, e dispõem de elementos de sobrevivência adquiridos em sua prática diária. Filhos de famílias numerosas, tendo que disputar, ainda no berço, o pedaço de pão repartido por vários irmãos, esse menor carente, dilacerado naquilo que costumamos chamar de seio familiar, deverá encontrar sozinho resposta às suas primeiras impressões de vida. Na escola, ele deverá se ajustar a um universo distante, impossível, que lhe é proposto todos os dias. Deverá mastigar dia-a-dia os números de uma matemática insossa ou as palavras de um português que desconhece. Órfãs de pai e mãe, já que ambos se lançam desesperadamente no mercado de trabalho em busca de escassas conquistas, essas crianças são formadas na própria vida comunitária. No caso urbano especificamente, comunidades aculturadas que nada ou quase nada podem oferecer. A escola passa a ser o provedor alimentar, onde essas crianças têm pelo menos a oportunidade de faturar um prato de comida. Quando ao ensino, este não lhes foi destinado. Falam para outras crianças, que não elas. O que lhe é dado na escola não é seu. O seu, ela precisou conquistar, o da escola não lhe vale, muitas vezes atrapalha, confunde, desorienta e lhe escapa, como lhe escapa esse infantil que os pedagogos procuram avidamente resgatar. Em todos os casos, a criança tem sido seu próprio mentor. Deverá estar subjugada aos critérios de qualidade determinados pela ideologia dominante. Sua autopunição virá de sua maior ou menor inserção e adaptação ao modelo proposto. Quanto mais ela se aproximar deste modelo de criança fabricada, mais ela será aceita pela sociedade.
Com o desenvolvimento tecnológico e a necessidade cada vez mais premente de dotar-se um número maior de pessoas de elementos necessários à sua rápida capacitação profissional, nivelou-se o sistema de ensino. Apesar do ressentimento nacional, já que praticamente todos os segmentos da sociedade foram prejudicados nesse “nivelamento por baixo”, esta situação permanece estável de certa forma, já que os bem nascidos realmente dispõem de outros canais que complementam satisfatoriamente sua formação. Os filhos de classe média em geral se aprimoram em cursos de idiomas, em academias esportivas, etc.
Portanto, falar em criança ou em literatura infantil é falar apenas de um determinado tipo de criança, produzida pela ideologia dominante e reproduzida pelos seus representantes: a família, a escola, a comunidade, e os vários aparelhos culturais da sociedade expressos na indústria do infantil. Nesse sentido, podemos afirmar que a própria reprodução da criança burguesa em todos os níveis da sociedade, e inclusive no interior da própria burguesia, parece contar com a colaboração intermitente da chamada literatura infantil.
Para que criança, então, escrevemos? Em primeiro lugar para as alfabetizadas, aquelas que já foram introduzidas no universo mental da imaginação abstrata. A partir daí, pode-se trabalhar ou não o hábito de leitura. Se a família tem o hábito de ler, certamente a criança terá. Se não tiver o hábito de ler, mas de assistir tv, certamente ela também assistirá. Se a família não tiver um nível intelectual mínimo, que possa sair das conversas meramente prosaicas - como as que normalmente ocupam a maior parte das conversas familiares - aumentam mais ainda as probabilidades. Se além de ter um nível intelectual mínimo, se nessa família se conversa sobre arte, economia, política, cultura, esportes, sexo, relações afetivas, etc., aumentam mais ainda as possibilidades. Nesse sentido, cabem as famílias de classe média, a continuidade e a preservação cultural que herdamos, onde a informação extrapola aquilo que é veiculado apenas pelos meios de comunicação de massa. Mas nem mesmo no interior das famílias mais abastadas há um intercâmbio cultural efetivo, já que com a reforma de ensino o nivelamento provocou um empobrecimento cultural deplorável. Portanto, sobra realmente um grupo muito seleto de artistas, intelectuais e alguns outros poucos que desenvolveram – inclusive através do hábito de leitura  – o seu universo pessoal.
No caso da escola, a situação é semelhante. Se a escola pretende seguir o que está determinado no currículo escolar definido pelo MEC é uma história bem diferente da intenção de estimular, com o mínimo de interferência, o que cada aluno tem de melhor, privilegiando a diferença. A educação não é apenas passagem de conhecimento, é apuro dos sentidos, sofisticação do ser, cultivo da alma.  A educação é quase individual, é uma atenção especial que o professor deve dedicar a cada um dos seus alunos, promovendo neles a sua própria descoberta. Mas são poucas – ou quase nenhuma – as escolas que realmente colocam como ponto de destaque o respeito pela diferença. Por isso utilizam um ensino pasteurizado, tornando todos – crianças e adolescentes-  iguais e incompetentes para a idade adulta. Uma grande massa amorfa, sem critério, sem atitude, sem escolha, sem pensamento próprio, sem discernimento, sem qualidade interna de vida é despejada na sociedade por escolas que se dizem de vanguarda, muitas vezes. Na verdade, essas escolas não estão sequer equipadas para a formação mínima exigida pela reforma de ensino, quanto mais para a formação de uma massa crítica.
       A grande transformação ocorrida a partir da geração dos anos 70 certamente saiu de escolas que decididamente ensinavam o aluno a ter pensamento próprio. Pelas próprias condições planetárias, essa geração cresceu nos albores de um pós-guerra, quando então a humanidade havia descoberto o seu pior. Maio de 68 ficou marcado como o momento em que o mundo precisou tomar fôlego e discutir abertamente questões que antes ficavam relegadas aos pensamentos proibidos. As escolas públicas – quem não se lembra do Instituto de Educação e do Colégio Pedro II, no Rio – cumpriam um papel emancipador das mentes das crianças e dos adolescentes, influenciando aí sim na formação de novos leitores. As escolas particulares eram poucas, e a maior parte pertencia à igreja católica, que apesar de ser demasiadamente rigorosa ainda, tinha em seu quadro docente uma quantidade expressiva de excelentes intelectuais.  Respirava-se cultura importada da Europa basicamente. Mas um tipo de cultura que cumpriu durante um bom tempo a função de introduzir nas mentes questionamentos, crítica, avaliação e transformação – que resultou numa revolução dos costumes, da família, da mulher e das chamadas minorias oprimidas.  
No final do século XX, a educação se deteriorou. Estamos vivendo o resultado da aculturação, da repressão, da liquidação do que tínhamos de melhor – a formação dessa massa crítica que nos custou tão caro. Claro que a ditadura militar tem o seu quinhão de responsabilidade no atual cenário cultural, mas também e principalmente a aculturação da classe média, promovida pelas escolas de primeiro e segundo graus, acrescida da inexistência de valores familiares – sejam eles quais forem – complicaram ainda mais a situação. A questão política e econômica também tem sido decisiva. O atual modelo econômico do neoliberalismo tem cultivado frutos amargos que estamos já colhendo praticamente no mundo inteiro. Portanto, se queremos falar na formação de novos leitores, devemos levar em consideração a especificidade atual da aculturação em nosso país e a inexistência de uma massa crítica nos vários segmentos da nossa sociedade.
A educação agoniza. Os recursos humanistas que tínhamos ao nosso dispor foram relegados à prateleira do arquivo morto da nossa memória. Pensar filosoficamente, ou seja, pensar na nossa condição humana, na necessidade que temos de buscar elementos para o nosso desenvolvimento individual, são questões que esbarram hoje numa competência funcional inadequada. O mercado de trabalho suprimiu – definitivamente – questões que sempre conduziram a humanidade para o interior de si mesma. Pensar filosoficamente é algo que nos oprime hoje, enquanto sabemos que civilizações inteiras alcançaram altos patamares de desenvolvimento social tendo por objetivo a compreensão básica da existência no aqui e agora. Se a educação não se volta para a introdução do ensino da filosofia, do ensino poético, do ensino emancipatório, sobra apenas um punhado de escravos mecanizados pelo cotidiano de uma sociedade incapaz de refletir sobre si mesma.
Por isso, respondendo rapidamente às questões colocadas pelos pós-modernos, seria interessante sim que retomássemos, pelos menos naquilo que se mostrou emancipatório, a herança do Iluminismo, introduzindo as conquistas primordiais dos séculos subsequentes.
Portanto, se escrevemos para crianças e adolescentes de classe média, já que os menos favorecidos ainda precisam se fixar na sua própria sobrevivência física, que tipo de literatura oferecemos? Por outro lado, se essas crianças de classe média também estão aculturadas, estão condicionadas a um pensamento amorfo e destituído de uma visão crítica, escrevemos pra quê? Afinal, quem está apto a ler?