O Predador - Crônica

O Predador
 
 
Dedico aos predadores, aqueles que corrompem a existência.


É excremento o teu pavor quando me olha, perdido dentro da tua pequena visão de mundo. Cego, de alma pesada, largada aos seus próprios estragos, esmerilhada pelo correr dos anos que te poluíram. O teu abandono é estudado, a tua vida viciada, morta e desolada como os escárnios que o universo lança em teu rosto pouco sofrido. De uma lentidão sem tamanho, como os rinocerontes que vociferam à própria passagem, pois nada vê que não seja o rabo que ostenta, miserável. Ínfima inquietude de um coração debochado. O que sofre, senão a tua insônia lentamente construída? Desolado, alquebrado, disfarçado, sem sequer encarar a sorte que te lança um milhão de raios coloridos, de pedras preciosas que te empanturram o ventre, como o porco come as pérolas e arrota os vermes quentes que defloram os órgãos, a pele, a lassidão dos teus olhos corrompidos. É asco o cheiro que sai dos podres do teu intestino preso. É arroto venenoso o teu carinho, com as patas voltadas para a imensidão sem tamanho de sua alma vagante, que se mira num espelho retorcido. O que vê?, se é que enxerga algo que não seja a catarata do teu próprio olho. O que vê?, senão o teu terror misturado ao teu cheiro, à tua podridão, como se cobras e lagartos convivessem no mesmo espaço da tua imensa barriga. É asqueroso o teu arrogante ato de dormir nos braços da amante antes de partir, como algo conquistado e fim. É demasiado o descaso das cobertas largadas contra as paredes vomitadas pelo teu ronco. É perverso o teu amor leitoso, o teu rancor pecaminoso, o teu afeto que seduz a presa entre  teus braços já saciados, qual um vampiro anseia até a última gota um outro espírito. Travestido em homem, animal azeitado de pequenas promessas, arde teu semblante em minha mente, ainda presente.  Ai, horror é a lembrança de ti em minha pele untada de perdição descontrolada, de injúrias que lancei, eu mesma, em meu próprio rosto. No tapa que desabei em minha própria cara. No desencontro das noites em que não dormi, sacudida pela ausência imensa de mim. Eu te perdoo, como quem perdoa as baratas. Não te mato, deixo que a tua desova seja procriada nas privadas sujas do prédio onde habitas. É denso o destino que você mesmo cava como se cavasse além do poço profundo em que vives, distante do mundo, distante da vida. É apropriada a tua bizarra sintonia com o que há de mais vulgar, a tua destemida simpatia pelos infelizes, os iguais, os acabrunhados da sorte, os azarados, os desafortunados, os imbecis, os mortos. É tua sina ter me encontrado, sou a perseguição, a intromissão, o abandono, a compreensão, a saúde, o desvelo e o aniquilamento poderoso do meu escárnio em tua alma que se fecha acobertada, e foge protegida. Eu sou o despertar desse teu eu acorrentado, o provável aniquilar do teu ego ressentido. Sou o teu obsessor, sou o amor, o único capaz de entornar um pouco de paz em tua alma perdida. E você foge, qual inseto desprovido de senso, lançando as antenas contra o seu próprio muro erguido, correndo de si mesmo, sombra do teu aniquilamento. Foge, desgraçado. Foge da única possibilidade. Mesmo que num relance perceba a minha boca grudada no teu pescoço, sussurrando “Acorda, Lázaro!!! Levanta!!!, nem assim você se desapega da tua única verdade, e continua absolutamente inerte na mais quieta mesmice. E fico triste por mim, por ter usufruído da sua presença em minha vida, esmagada pelos seus braços excessivamente musculosos que me oprimiram. Nada ficou que não fosse um pequeno aceno de despedida, como as bandeiras manchadas de sangue após uma guerra perdida. E me despeço do que fui antes. Do meu jeito ingênuo de olhar o mundo, do meu amor tão oferecido, da minha alegria quase infantil. E aceito o infortúnio de ser uma nova mulher, mais sarcástica, mais irônica, mais desconfiada, desorientada, desconhecida. E me vou, com o resto da humanidade, igualada à grande massa dos vencidos, por estradas pouco confiáveis, sozinha, estranha, mal amada, desiludida, cansada e sofrida. Dói essa imensa ferida que não fecha, como se ficasse aberta à espera dos abutres, que me cercam, sentindo o seu cheiro ainda recente em minha pele, agora ressentida. Pois então, leva tudo o que restou de ti, e me devolve apenas o que é meu na justa medida do que se multiplicou e te ofereci. E foi tão grande o milagre da multiplicação, que quero de volta a saciedade da tua alma repleta do meu deus interior, a profusão dos meus sentimentos que te alimentaram, minha beleza,  minha lealdade, a minha audácia destemida, o meu aconchego no silêncio do meu quarto, a minha paz de espírito.