Marina do Poeta
Na Marina do Poeta, os seus olhos me encontraram, me deitaram sobre a relva fina que brotava aos nossos pés, logo adiante, como se o mar fosse um tapete de grama prateada, onde a lua desfilava intacta e bela. Foi rápido o tempo que ficamos na espera, da inebriante vontade de deitar no silêncio das noites descobertas. Sob o ardente encontro dos nossos sonhos amantes, a lua, minguante, se estirava em nosso colo, cansada de tantas madrugadas repletas de versos.
Fiquei devendo talvez a possibilidade de você me amar demasiado. Fiquei devendo talvez a possibilidade de deitar com você no espaço e dançar sobre o tapete deslizante do mar, equipados com as asas dos anjos que nos amparavam alegres. É um desperdício deixar que as sombras do nosso passado tão iluminado, se perca. É um desperdício até mesmo tentar aprisionar aqui - entre palavras tão pouco fiéis - o nosso caso desfeito.
Pena que tudo seja tão apavorantemente fugaz, tão infinitamente pequeno, e que você tenha permanecido como o melhor dos amigos deste ano inteiro. E que você tenha permanecido como o melhor dos cativos desse encontro, do qual conservo o seu cheiro, o meu abandono, o seu medo, o terror em te perder quando você vinha ao meu encontro, o seu jeito de homem dengoso, o meu estranho desejo de querer te ensinar a viver – como se eu soubesse. Me lembro também da sua vergonha, como se no conforto dos meus braços você expusesse pedaços, que às vezes interrompiam nossos afagos tão íntimos para se estender em íntimas conversas. Me lembro também do seu pequeno apartamento e o nosso cheiro que impregnava as cobertas, as madeixas molhadas do suor dos meus cabelos, dos seus cabelos, dos seus abraços misturados aos meus afetos. Me lembro também dos telefonemas extensos, das vezes em que corri na sua direção como se você fosse um antigo companheiro.
Ah, como a lua ficou impregnada de vontade, como se dela tivesse sido arrancada a nossa parte nesse pequeno espaço que ocupamos. Como se todo o universo fosse marina repleta de nós. Como se todo o espaço entre o mar, a areia onde deitamos a nossa história, e o nosso olhar que mirava as estrelas com o conforto plácido dos que erram, ficasse banhado pela luz azulada que a lua ainda lança em minha memória. E é você, clareado de um rompante de amor singelo, de uma enternecida história que jamais acaba, de um adeus que ficou no ar, é você que ficou parado como os acenos das imagens de infância, que ainda permanecem. Me lembro das nossas melhores noites de rimas, do pessoal que vinha nos assistir, como se o motivo principal fosse usufruir do amor que rodeava o nosso encontro, e não os versos que deveriam levar tanta gente ali. Era bonito ver quando você me encontrava, quando o seu perfume tocava o meu repleto de mulher. Então tudo sumia, o chão, a multidão, o microfone, os risos, as palavras, os desencontros dos que partiam, a balbúrdia dos que chegavam. Nem mesmo o mar ficava, quieto demais, talvez esperasse por uma deixa, uma onda que pudesse sobrepujar o nosso silêncio amoroso, o carinho ousado do nosso olhar um no outro, o brilho exagerado que contornava a todos, como se todos estivessem partilhando do imã vibrante que nos aproximava. Somente a lua ousava permanecer, destemida e cúmplice , e era tanta ousadia, tanto olhar surpreendido, tanta falta de juízo, que até os versos se perdiam diante da real poesia que rolava das nossas bocas que se beijavam.
E seria mais amplo esse nosso encontro, se tivesse a mesma dimensão do intenso transe que passamos juntos diante da lua, debaixo das cobertas do meu quarto. Só que, de repente, e apenas só de repente, algum motivo escuso te afastou de mim. E então, quando o passado já havia deitado seu manto desesperado, e a lua tentava não se esvair de todo, nada mais havia na marina que não fosse a ausência de um possível encontro. E me defrontei com o seu jeito infiel de viver pela metade o que a vida lhe dava com um transbordar de excessos. E também com o meu sôfrego dilúvio interno, me deixei poupar por inteiro do teu inconveniente jeito de se afastar de mim. Os desencontros de uma situação que acabava, deixando lugar a uma cruel despedida, como se virar amigo fosse coisa pensada e decidida. E ficamos com essa interrupção nos maltratando, com essa rapidez distorcida, com essa atitude que mascara a nossa verdadeira vontade de viver o que ficou perdido.
Tanto tempo depois, e eu aqui no devaneio do que podia ter sido. Tanto tempo, tanto descaso, tanto ato esquecido, tanta palavra vertida, tanto verso abandonado, como os mendigos que abandonam suas tralhas. Economizamos na poesia, ávidos de agonia. Talvez seja esse o meu desmazelo diante do olhar que te lanço. Talvez seja esse o confronto que não ousei desvendar com a tua partida. E a lua, velhaca, agora ri em meu rosto, escarnecida. Vem – ela me diz - mais um pouco, e o teu corpo lamberá os escombros do infortúnio, enquanto a tua alma rendida e seca verterá em direção ao acaso, iludida por antigas palavras vazias. E quem sabe, esquecido o desprezo contido que lançamos um em direção ao outro, o nosso amor um dia possa resplandecer como os lírios na lama pútrida emergem em direção à lua, novamente atraídos. E quem sabe, os versos que não deram em nada, possam ser aproveitados em outra obra, talvez mais perfeita.
Por enquanto, muito longe do adeus, devo me despedir até qualquer outro dia, quando eu puder erguer novamente o olhar e encontrar ao meu lado a sua mão, o seu jeito carinhoso de me beijar o rosto, o sorridente encontro da nossa natureza que ama além do que deveria, a sua impaciente incompreensão de si. Estender o braço, rodopiar como as crianças envolvidas no abraço, me alegrar apenas com a nossa eterna despedida. E abandonar a esperança de te ter novamente em minha cama, rejeitando a lua que distraída passa - como se eu não fosse mais o seu alvo preferido - e mais uma vez esquecer as antigas possibilidades, me deter em seus braços e chamá-lo de amigo.