A Arte da Resistência - artigo


A Arte da Resistência

 
            Profa. Dra. Eliane Ganem


Este texto foi originariamente apresentado no “I Simpósio de Arte e Cultura da Diversidade: Poéticas do Cotidiano”, organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Arte da UFF.

           Para não me estender demasiadamente em conceitos que não podem ser entendidos rapidamente, quero apenas enfatizar aqui que qualquer investigação sobre arte e ciência supõe uma reflexão fundamental sobre a existência e que pode ser expressa na pergunta - “Quem sou eu?”. Como um corpo social, estamos voltados basicamente para essa pergunta fundamental também no sentido da nossa experiência cultural, ou seja, como conjunto coeso de interações, de necessidades comuns, de ideologia, de crenças, que fazem com que permaneçamos ligados por vínculos sólidos e princípios éticos inquestionáveis. A maior parte dessas ideias que nos tornam coesos faz parte da comunicação que é passada de consciência para consciência, formando um ego social forte e necessário à nossa sobrevivência.

            Comungamos mais ou menos as mesmas ideias estabelecendo normas, regras, leis e desenvolvendo uma ciência e uma tecnologia, assim como uma arte que confirme as nossas atitudes e crenças. Um exemplo disso foi a arte do século 20. Esta arte se forjou vinculada aos ideais científicos das ciências sociais, que teve como expressão máxima as novas teorias que transformaram o século 20 num laboratório prático para que a arte e a ciência caminhassem de mãos dadas.  As ideias revolucionárias marxistas, que identificamos como o centro do pensamento das ciências sociais do século 20, caminharam passo a passo com uma arte que chamamos de revolucionária, uma arte da resistência, uma arte engajada e promissora e que ventilava a busca de novos ares para a humanidade e, individualmente, para nós mesmos.

A expressão “resistência” foi cunhada por esta nova forma de compreensão do mundo. Borramos tudo de uma única cor – o vermelho – e definimos para nós uma posição única de estar no mundo.  Pelo menos no mundo Ocidental, a arte passa a se constituir como arte de resistência ao sistema, de resistência ao capitalismo, de resistência à exploração dos países mais adiantados, de resistência popular à arte de elite, à arte burguesa, enfim a arte resistindo à própria arte muitas vezes e criando barreiras que se tangenciavam, mas que dificilmente se imbricavam umas nas outras.

O olhar do século 21 nos permite fazer uma reflexão sobre o nosso conceito atual de arte e como precisamos nos desfazer desse “olhar” comprometido com as ciências sociais do século marxista que acabamos de deixar para trás. Inauguramos talvez uma nova percepção de mundo, uma nova ética, uma nova experiência mística do ser em busca de si mesmo, abandonando não a ciência, mas a resistência que nos impomos diante de ideais europeus, que  importamos.

No Brasil, não temos uma arte de museus, a não ser em um  sentido muito pontual – ou seja, aqui e ali, temos um Portinari, um Di Cavalcanti, uma Malfatti, uma Tarsila, e alguns outros poucos, mas não temos movimentos expressivos que tenham criado um acervo abundante e de qualidade realmente reconhecida não só por nós, mas também pela crítica internacional. Desde 1920, com a nossa famosa Semana de Arte Moderna, que não tivemos movimentos que pudéssemos chamar de expressivos para a nossa arte, fossem eles quais fossem. Mesmo que alguns “especialistas” apontem para o construtivismo, o concretismo e o neoconcretismo - da década de 50 - não temos de verdade, hoje em dia, um desdobramento proeminente desses movimentos ondulatórios nas artes plásticas.   Por isso, é de extrema estranheza quando grupos sociais utilizam expressões - arte de elite, arte de museus  - em contrapartida com a arte popular que criamos no meio das ruas – ou no aconchego de espaços pobres e comunitários - deste nosso vasto e extenso território nacional. Muitas culturas convivem e se harmonizam umas nas outras na diversidade que nos acostumamos a presenciar no nosso país. Chamamos de popular essa arte como se houvesse a contrapartida de uma outra  – a de elite – e que estaria confinada em museus e cujos artistas seriam aqueles realmente reconhecidos e cujas obras – seletas – colocariam a chamada arte popular em desnível social, como arte não reconhecida, e por isso mesmo uma arte da resistência.

Na verdade, no nosso país só temos esta arte que chamamos de popular. Inexiste no Brasil atual uma elite intelectual forte. Até a década de 70, procurando otimistamente estender para a de 80, tínhamos uma arte em alguns centros urbanos, como Rio de Janeiro e São Paulo, que podíamos chamar de erudita até, mas de uma “elite” que – ironicamente - tratava de temas populares, denunciando a exclusão social, do ponto de vista da ótica marxista. Hoje, se há uma elite intelectual erudita, apenas temos dela ainda conservados algumas pálidas espécies confinadas nas universidades, em alguns órgãos de pesquisa, em alguns setores tímidos que ainda teimam em preservar o patrimônio histórico, artístico e cultural de um Brasil que importava da Europa um imaginário que não era seu. E esse tem sido o nosso ponto de estrangulamento. Uma elite intelectual não deve vir atrelada apenas a uma forma de pensamento, pois com esse tipo de atitude acaba por pagar o preço do seu próprio aniquilamento, resultado do passar dos anos, do esgotamento de sua única crença.

Na verdade, até o século passado importamos da Europa a nossa arte. No teatro, por exemplo, Brecht mudou toda a concepção teatral, a dramaturgia, a forma de interação público-plateia, criando um teatro novo e revolucionário. O teatro da consciência revelou que a arte tinha um papel de transformação social que extrapolava o conceito de fruição estética da arte burguesa. No Brasil, tivemos textos de Oswald de Andrade – com o seu famoso Rei da Vela – eclodindo num teatro de vanguarda associado a uma luta de classes, contra a elite burguesa e a ditadura militar, que estranhamente, ao invés de proteger a burguesia - como seria de se esperar - na verdade perseguiu os seus filhos, torturando-os e, muitas vezes, eliminando-os ao longo de mais de duas décadas.

Enfim, herdamos literalmente as ideias revolucionárias da juventude europeia – da revolução russa até as duas grandes guerras mundiais – recebendo em nosso território um grande contingente de intelectuais jovens, que fugiram de seus países. Atores, diretores de teatro, que por aqui aportaram, trouxeram não só as ideias revolucionárias marxistas, mas também trouxeram a si mesmos, sua visão de mundo, sua resistência, seus ideais.

            Esse movimento se fez expressivo também na nossa música – as composições de Chico Buarque eram inteligíveis apenas para os iniciados que comungavam os ideais marxistas. Expressivo também na literatura, nas artes plásticas, enfim em todos os setores, já que a grande maioria dos artistas passou a utilizar a arte como o lugar da denúncia social, da resistência e do despertar coletivo.

Hoje em dia nos acostumamos a olhar o mundo ainda por esta ótica manchada da resistência. Ainda estamos resistindo, querendo que a arte popular seja reconhecida, protegida, valorizada e mistificada. Não nos perguntamos ainda do que se trata exatamente esse reconhecimento e por quem, e que arte é esta. Não nos preocupamos exatamente com a nossa arte e a qualidade artística dessa arte – já que essa conceituação é burguesa – mas com o que os artistas estão fazendo para tornar sua arte popular e assimilável pelas camadas mais carentes da população. E se esses artistas, ao se voltarem  para as comunidades carentes, realizam algum “trabalho de base” que possa contribuir com a melhoria do nível intelectual do povo.

Mesmo correndo o risco de expor um pensamento contrário ao que foi defendido no século passado, gostaria de deixar a minha contribuição no sentido de levantar uma questão que acredito primordial para o nosso entendimento sobre a arte popular. Na minha opinião, não existe hoje outra arte em nosso país que não seja a chamada arte popular. A velha dicotomia entre a arte burguesa e a arte popular, que levamos mais de um século cunhando, se mostrou estéril pelo menos na nossa realidade brasileira. Toda a nossa arte, da menos à mais expressiva, nasceu e se desenvolveu como arte popular. Como já disse anteriormente, mais do que felizmente, infelizmente não temos aquilo que se pode chamar de uma arte burguesa expressiva, uma arte de museu, uma arte erudita ou uma arte de elite. Digo infelizmente, porque a nossa resistência talvez nos tenha tornado menos ricos em nossa diversidade cultural e artística, moldando os olhos através do preconceito rude de um proletariado imaginário.

Por outro lado, esse fato nos liberta, e é exatamente isso que quero chamar a atenção aqui. É que não precisamos do reconhecimento do outro para que a arte popular se firme. A arte do outro também é popular, e ele também depende do nosso olhar para confirmar a sua importância cultural. A arte das ruas, das comunidades – carentes ou não - criadas dentro da necessidade de expressão da nossa constituição como povo, da nossa busca por uma identidade cultural diversificada, é a nossa única arte. Cheia de influências, de miscigenação de muitas culturas, muitas vezes desdentada e inapropriada. Muitas vezes expressa com palavras erradas, com erros de concordância, pintada com tinta de má qualidade, borrada, excessivamente diluída. Repleta de danças com um formato indígena, negro, caboclo, cheia de folguedos e intromissões, de cores e de um imaginário retirado dos muitos mitos que carregamos das nações que nos constituíram. Não há a quê resistir, não há o que reconhecer. Estamos todos já apropriados pela nossa brasilidade que reconhece o congado, o jongo, o maracatu, a capoeira, o bumba-meu-boi, as inúmeras cantorias e rezas das benzedeiras, os repentes, o cordel, a nossa irreverente facilidade de criar novas possibilidades baseadas em antigas tradições. O samba, as rodas de umbanda, as giras, os pontos cantados, a alegria e a tristeza que nos inspiram. Até mesmo no imaginário poético da nossa relação com o divino. Mesmo nas igrejas importadas – com santos que são, na sua maior parte, europeus. Ou então, com a importação e a apropriação das ideias de Lutero, Calvino, também europeus, e que seccionaram as igrejas para nos fazer pensar – hoje em dia – que cabe também na nossa diversidade esse jeito rigoroso dos ternos mofados e das saias pregueadas e compridas das mulheres beatas.   

Enfim, chamo a atenção para o fato de que no século passado importamos o nosso saber, a nossa imaginação, a nossa compreensão, a nossa política, a ética, a moral, a relação dos homens sisudos dos países frios, as roupas, as divindades, a literatura, a poesia, a pintura, os clássicos, os filmes, o teatro, a dança, o inconformismo dos povos europeus e chamamos tudo isso de nosso por um bom tempo.  E esperamos que esse nosso, como cobra criada, deite o seu olhar superior e reconheça o outro lado, aquele que passamos o mesmo longo tempo escondendo, quem sabe para podermos depois inventar aquilo que chamamos de resistência, criando assim o nosso próprio inimigo, lutando contra moinhos de vento que jamais existiram.

 Esquecemos que chamamos de nosso também os orixás, o carnaval, as escolas de samba, os gingados mulatos e toda uma cultura negra importada. E que não a qualificamos como erudita, já que permaneceu confinada nas senzalas. Mas que em outros países pode ser borrada com a capa sofisticada daquilo que é importado, exótico, diferente.

Enfim, a nossa arte é esta diversidade, presente no batuques das ruas, nos quintais das casas, nas tiras de papel repletas de poesia e penduradas nas cordas, no barro espremido entre nossas mãos caboclas – em esculturas torcidas como os filetes de alma que povoam os sertões.

E este meu depoimento tem a marca de uma artista que se sente um pouco um animal em extinção. Não faço parte desse popular, porque eu sou esse popular. Não levo a minha experiência para as comunidades carentes porque os meus livros penetram nas casas, sem discriminação. Este é o meu trabalho, como escritora. É sozinha, no silêncio da minha alma que se expõe ao mundo, que construo a minha identidade, o meu quem eu sou? É assim o caminho dos artistas, dos poetas, dos pintores, dos cantores, dos jongueiros, dos repentistas, dos capoeiristas, dos escultores, dos atores. Esta é a nossa conversa com Deus. Não porque o social precisa de nós, mas porque é na busca incessante do nosso próprio eu que nos revelamos ao outro e entregamos a ele o que temos de melhor. E então o social se revela como um coletivo de múltiplas expressões.

Na verdade, dançamos porque dançamos. Cantamos porque cantamos. Escrevemos porque escrevemos. Enfim, vivemos, mesmo que não haja motivo. E não há nenhum social capaz de explicar isso.

O que quero deixar claro aqui é que não precisamos mais nos apegar aos nossos inimigos, aos burgueses, ao capitalismo, ao estrangeiro, ao internacional. Não precisamos mais viver a divisão que criamos no seio mesmo de uma arte popular, seccionando-a de acordo com modelos inventados pelas ideias revolucionárias das ciências sociais do século passado. Afinal, já que não temos mesmo uma arte burguesa, podemos relaxar na nossa obscura missão de julgar a arte. Não precisamos mais gerar o ódio, a luta de classes, a resistência, o medo, a discórdia, as guerras exageradas, as dissidências, a corrupção de nossas almas envenenadas, a mídia do espetáculo, os sem teto, os sem vontade, os derrotados, os descamisados, os boias-frias. Não precisamos mais passar nenhuma demão de tinta em nossa paz de espírito, nem precisamos mais ser revolucionários, frios, duros e calculistas. E nem mesmo precisamos aprender uma forma de “não perder a ternura jamais”.

Não precisamos mais criar nem mesmo novos inimigos. Os que temos nos bastam. Precisamos agora reconhecer que não precisamos mais de reconhecimento. Que a nossa arte é única e toda ela popular. Que a resistência está fadada ao esquecimento. Estamos todos solidários no mesmo projeto que é enxergar a nossa brasilidade, não pelo viés do olhar estrangeiro, mas pelo viés da nossa diversidade, da nossa afirmação enquanto cientistas, artistas, espiritualistas e nação ávida por novos anseios, novas bases e um novo entendimento de si mesma.

Estamos recriando a possibilidade de aproximar a arte e a ciência, agora não mais no interior de uma concepção marxista, como foi a aliança entre a arte e a ciência no século passado. Mas agora uma aliança que requer autonomia artística, ou seja, a possibilidade da arte estabelecer seu próprio estatuto, mas ao mesmo tempo se colocando como alicerce de uma nova ciência, que pressupõe novos paradigmas para construção de um novo olhar científico. A arte e a ciência hoje – aliviadas da carga do passado - caminham de mãos dadas no projeto único de investigação da nossa brasilidade, do “quem somos nós, realmente”.  E esse é um projeto capaz de nos revelar a nossa verdadeira face, de recriar a nossa atual identidade e de estabelecer para nós mesmos os nossos próximos desafios.

A arte, aliada às novas possibilidades de uma ciência que se argui a si mesma, atribuindo a si mesma uma nova consciência, será talvez o ponto de transformação necessário para a inclusão social de todos. Talvez a menina dos olhos do século 21 seja esse florescimento da consciência, e da possibilidade que temos de perceber que condicionamos a nossa forma de existir e de nos inserirmos no mundo ao roteiro que nós mesmos podemos construir para as nossas experiências artísticas, científicas, filosóficas e místicas. Na verdade, o que nos acontece não é fruto apenas das oportunidades deste planeta, mas das oportunidades que a nossa consciência busca, nesse afã que temos de estabelecer uma comunicação interior espiritualmente rica, e que é nomeada por nós como arte e ciência. Mas que também cria para nós a nossa própria prisão, caso não tenhamos a clareza de que se tratam de conceitos, ou como diz Foucault, tão apropriadamente, “de palavras e coisas” ligadas por similitudes e analogias que nós mesmos criamos.

A Saúde do Ser - artigo e palestra apresentada em evento internacional no Johrey Center


A Saúde do Ser

 

 Eliane Ganem

 

Este trabalho é parte de um outro maior, cuja proposta fundamental é a de inaugurar um novo campo de investigação dentro da Teoria da Comunicação, não mais em seu aspecto social, mas agora voltado para a comunicação interna que o ser estabelece consigo mesmo.

Quando se fala em Saúde do Ser, precisamos estabelecer alguns critérios para avaliarmos algo tão subjetivo. O saúde não é algo que se passa apenas no corpo físico. O que pensamos, como funcionamos mentalmente, como atuamos no dia-a-dia com os nossos sentimentos, como superamos problemas, avaliamos nossos atos, absorvemos as dificuldades nos relacionamentos, no trabalho, nas atitudes dos outros, na vida, são fatores poderosos para definirmos se alguém tem mais ou menos saúde. Portanto, a saúde do ser envolve algo que nem percebemos, mas que significa a amplitude do nosso universo interior, em geral abordada exaustivamente por grupos espiritualistas.

Ter contato com o nosso universo interior pressupõe um aprofundamento na nossa forma de pensar, na nossa forma de atuar, de sentir, de viver. Por isso, a Comunicação Transpessoal já nasceu equipada de fundamento “espiritual”, porque investiga aquilo que tem sido relegado ao plano do invisível e, por isso mesmo, de difícil acesso para a ciência. No entanto, foi a partir do desenvolvimento da Psicologia Transpessoal que a Comunicação pode expandir seus critérios científicos para a mente humana.

Na Comunicação Transpessoal não nos preocupamos mais em qualificar ou identificar os processos que envolvem a comunicação entre um ser e outro, entre máquinas ou até mesmo entre seres e máquinas, mas nos atemos exclusivamente na Comunicação que estabelecemos internamente. Essa comunicação silenciosa, mas incessante, que a nossa mente executa ininterruptamente com os muitos seres que habitam o nosso plano mental.
É importante salientar que, ao contrário da Psicologia, a Comunicação Transpessoal não está interessada em associar as diferentes respostas do ser ao plano das patologias. Apenas identificamos que  aquilo que o ser comunica a si mesmo são formas de contato, que ele é obrigado a desenvolver, e que tem origem na sua necessidade de ordenar o mundo elaborando respostas para as suas experiências ao longo dos anos. Essas respostas, ou seja, o corpo de atitudes, pensamentos e diálogos internos, vão formar finalmente um sistema coeso e coerente que chamamos de ego.

Portanto, ao se investigar a Comunicação Interna do Ser com ele mesmo, estamos na verdade investigando dois tipos de comunicação – a do ego e a do eu – e as diferenciações entre cada uma delas. Nesse sentido, um trabalho que inclui a consciência no próprio corpo da investigação, precisa levar em conta a consciência do investigador no processo. Por isso, usou-se como instrumental de trabalho e de pesquisa, alguns elementos emprestados da Física Quântica -basicamente o conceito de processo e energia – e também alguns sistemas elaborados pelos filósofos orientais – e que nos remeteram para aquilo que chamamos de experiência mística. E, finalmente, nos voltamos novamente para o Ocidente, fazendo a ponte necessária entre o pensamento oriental e o pensamento ocidental, através dos mais importantes pensadores do Ocidente – buscando compreender o ser, mesmo que do “canto do olho”, como sugere Sartre em seu livro “A Transcendência do Ego ”.

          Tendo sido compreendido no Ocidente como algo menor, algo que não dava conta da realidade objetiva estudada pela ciência e da realidade subjetiva  estudada pela  filosofia, a experiência mística ficou sempre relegada aos limites  inapropriados da  fé religiosa. No entanto, como o próprio nome diz, a experiência mística não supõe a fé, já que a fé, na verdade, nasce da incerteza, nasce da necessidade de atribuir ao outro, ou a alguma entidade, a salvação da alma e/ou a cura dos males. Enquanto que a experiência mística só existe como descoberta do ser em direção a si mesmo, ou seja, quando a fé se transforma em confiança (pistis) e que Jung compreende tão bem em seu comentário psicológico na Introdução do “Livro Tibetano da Grande Libertação”. Nesse sentido, esse movimento pode ser chamado de religioso, mas está para além das igrejas e dos dogmas. Devendo ser vivido e experimentado  por todos aqueles que, em  busca da verdade, procuram  na ciência, na religião, na arte, e em si mesmos, respostas satisfatórias para a  sua existência no mundo.

Por isso, qualquer investigação sobre o ser propõe uma reflexão fundamental sobre a existência e que pode ser expressa na pergunta -    "Quem sou eu?".  A identificação de um ego social e um desdobramento  desse ego  em partes,  pressupõe uma comunicação entre essas partes.  Portanto, a comunicação que estabeleço com os múltiplos "seres" que habitam o espaço psíquico que ocupo parece  fundamental  para que haja uma compreensão  mais aproximada  desse ser que investiga a si mesmo através desta pergunta inicial.

Por isso, ao investigar o ser é necessário investigar a comunicação dos múltiplos seres que parecem habitar este alguém indivisível e único que chamamos de eu.  Portanto, ao que parece, é na comunicação interna que podemos ter um  vislumbre do nosso eu. É na exclusão, talvez, daquilo que não é o ego, que podemos chegar a esse ser que chamamos de eu.

.Na Comunicação Transpessoal há a intenção de pesquisar algumas das diferentes  formas de comunicação do ser  com ele mesmo, a partir do signo linguístico, das construções semânticas, da análise de imagens mentais, dos processos psíquicos, buscando  na Teoria da Comunicação instrumental necessário à análise dessas partes constituintes da personalidade e daquilo que chamamos consciência.

Para Sartre, é a consciência que cria o eu, e não ao contrário. Em “A Transcen-dência do Ego", ele afirma que “Não há conteúdo de consciência, não há o que na minha opinião, é o erro de Husserl, sujeito por detrás da consciência(...) há unicamente de alto a baixo, consciência”. Essa abordagem de Sartre é semelhante à abordagem que os místicos orientais fazem quando se reportam à Iluminação dos Avatares e Mestres. Para eles, a consciência tem vários níveis e tende a ser superada constantemente até que o ser chegue ao máximo de seu desenvolvimento. Nesse ponto, a Iluminação seria um estado sem ego e sem eu, de alto a baixo consciência, sem representações, sem significados, mas em bloco, direta, sem mediações e filtros sociais. Ou seja, uma consciência em que há uma ruptura entre os seres interiores, interrompendo, portanto, o processo de comunicação. Rompido esse processo de comunicação, um novo estado de ser acontece - é a Comunhão que esta consciência estabelecerá com o Todo.

No livro “Alem do Ego”, de Roger Walsh e Frances Vaughan, temos que consciente e inconsciente não são eternos e imutáveis:

"O que é inconsciente e o que é consciente depende da estrutura da sociedade e dos padrões de sentimento e de pensamento que ela produz. O efeito da sociedade é não apenas canalizar ficções para a nossa consciência, mas também evitar a percepção da realidade. Toda sociedade determina as formas de percepção. Esse sistema funciona, por assim dizer, como um filtro socialmente condicionado; a experiência só chega à percepção se puder passar pelo filtro". (p.120)

Ou seja, o que pensamos, o que vemos, o que escutamos é aquilo que é socialmente aceito. Não temos a capacidade de ver, sentir, atuar e pensar aquilo que o nosso código social não permite. Ou seja, ao selecionarmos um conjunto de frases quando falamos, escrevemos ou pensamos, não nos damos conta de que estamos procedendo a rapidíssimas seleções de signos, numa ordem organizativa prescrita pelas normas do sistema. Não nos damos conta realmente desta seleção porque  o processo já está  automatizado.

Uma forma de romper com esse diálogo interno que nos oblitera e nos reduz a meros atores sociais, é a introdução da meditação em nossas vidas. É uma das formas que temos disponíveis para fazer com que nossa mente opere de modo diferente daquele que estamos acostumados.

O objetivo da meditação é interromper o diálogo interno entre o eu e você que nos desorienta, oprime e muitas vezes nos escraviza em um único ponto de vista. O que falamos internamente, o que escolhemos para nós através de palavras, frases e conceitos, cotidianamente repetidos, é aquilo que nos tornamos. Por isso, ao se interromper essa enxurrada de elementos – às vezes até mesmo contraditórios – em nossa mente, em nosso sangue, artérias, veias e órgãos, podemos modificar substancialmente a nossa realidade interna no plano físico, mental, emocional e espiritual.

O objetivo da meditação é interromper aquilo que nos tornamos abrindo possibilidade para que o verdadeiro ser interior renasça. Os nossos conceitos, preconceitos, dúvidas, negatividades, pensamentos, sentimentos são resultado de uma sociedade escravizada, que não conhece a si mesma, que não permite que cada um de nós conheça a si mesmo, que não oferece outra realidade a não ser aquela determinada pela negação do eu em detrimento do ego. E isso vaza para todas as instâncias, até mesmos para aquelas que se dizem espirituais, porque estão no interior desta mesma sociedade, sem recursos disponíveis e apropriados para romper definitivamente com aquilo que os oprimem. Outras, nem mesmo estão interessadas em romper com nada. Pelo contrário, fazem parte do grande contingente que não pretende jamais romper, mas se favorecer da alienação de todos.

Por isso a meditação é revolucionária. Ao interromper o pensamento viciado, introduz a limpeza do espírito que se ilumina e passa a comungar existencialmente com tudo e com todos. Esse é o principal fundamento da espiritualidade. Não servir à sociedade, mas servir ao interior de cada um como se cada um fosse o retrato do nosso deus interior.

Cassirer, em sua “Antropologia Filosófica”, afirma que “a ciência é o último passo no desenvolvimento espiritual do homem e pode ser considerada como a mais alta e mais característica conquista da cultura humana.”  Para ele, antes dos pitagóricos e dos atomistas, inexistia qualquer concepção científica e esse modo muito particular de olhar e investigar a realidade. Foi após a Renascença que a ciência se estabeleceu, criou a base que sustenta hoje essa forma particular que o Ocidente criou para lidar com as questões fundamentais do homem. Provavelmente porque a filosofia sozinha não conseguia romper com a imensa e intricada malha que a sustentava, a ciência inaugura a experimentação sistemática e metódica, ou seja, nos proporciona a segurança de fixar pontos de apoio para que possamos acionar a alavanca do conhecimento.

No século XVIII, com o rompimento entre o Estado e a Igreja, inaugura-se esse campo neutro de investigação precioso. Naquele momento era necessária a criação dessa neutralidade  exatamente para impedir o assassinato em massa que o cristianismo ainda provocava em nome de Deus e da legalidade espiritual. No entanto, passados já alguns séculos, o pensamento cartesiano tem se demonstrado falho em algumas questões que a própria física quântica, por exemplo, tem tentado solucionar. A própria Arte possui um campo de conhecimento subjetivo incontestável. Não é à toa que a maior parte das investigações nas ciências humanas e sociais partiram – e partem ainda – de obras de escritores clássicos, como os livros por exemplo de Tolstoi, Balzac, Shakespeare, etc.

Hoje inauguramos uma nova ciência, aquela que tem alargado seus paradigmas para a investigação de processos invisíveis, voltados para a geração de energia. Essa investigação, exatamente por ter ainda um caráter subjetivo, é reforçada por outras instâncias que até os dias de hoje permanecem alijadas de alguns grupos científicos mais tradicionais. Uma dessas instâncias é a arte, como aproximação possível, como ponte de acesso a campos de saber aparentemente distantes.

A arte, a ciência e a espiritualidade formam três campos de conhecimento autônomos, mas que tendem a se aproximar nessa nova convergência de saberes. Quando falamos em espiritualidade, lembramos que somos todos seres espirituais. Por isso as teorias que excluem a possibilidade de estudar o ser em sua plenitude estão fadadas ao desaparecimento. A ciência não pode mais relegar ao plano das igrejas o autoconhecimento. Na verdade, quando um cientista se entrega a uma investigação, o seu modo de olhar, suas experiências anteriores, sua visão de mundo, suas crenças podem interferir diretamente nos resultados da pesquisa. Por isso, a física quântica tem introduzido a consciência do investigador como um elemento do processo de investigação. E é por isso que esta nova ciência tem se alargado na construção mesmo de uma Ciência do Ser.  

Além da Física Quântica, a Psicologia, a Comunicação e algumas outras ciências têm trabalho com a imaginação no campo das realidades. É necessário  que a Ciência do Ser se amplie na direção de uma investigação que leve em conta processos até hoje desconhecidos. É importante entender que aquilo que não é natural não precisa ser necessariamente sobrenatural, e é por isso que ao se alargar os paradigmas desta nova ciência alargam-se também os campos de investigação, inclusive para processos até hoje inexplicáveis.

Nesse sentido, falar em Saúde do Ser, pressupõe-se uma investigação sobre o que é o ser.  

Literatura Para Crianças e Jovens - artigo Parte II

Literatura para Crianças e Jovens - Parte II


 

A literatura é uma construção poética bastante elaborada. Imita o real, mas o individualiza na ânima de seus personagens. Tipifica, e nessa tipificação introduz o belo, às vezes o exagero, às vezes o terror, mas certamente introduz uma singular interpretação da realidade. A literatura nasce no bojo da Renascença, mas é a partir da imprensa de Gutenberg que se ampliou não só as possibilidades de divulgação da arte escrita como também a possibilidade de um maior número de leitores.

 Pode-se dizer que a obra literária rompe com as expectativas de seu leitor e existe para isso. Ou seja, que a criação artística é uma mensagem que se orienta necessariamente para seu recebedor, completando nesse sentido o processo fundamental da comunicação. Melhor dizendo, a mensagem se particulariza no momento em que provoca um “estranhamento”; portanto, precisa ser uma mensagem “original”, uma “criação”, no amplo sentido do termo, o que lhe assegura um caráter renovador.

É a partir dessa ruptura com o estabelecido, tanto a nível formal quanto de conteúdo, que a literatura enquanto arte, enquanto poética, pode provocar sua fissura ideológica em termos de visão da realidade e, por consequência, pode se constituir em objeto de conhecimento, ampliando e renovando o horizonte de percepção do leitor. É nesse momento que a arte se afirma como uma construção a-histórica, que apesar de estar no bojo de um social, está para além dele e pode dele falar.

         Em constante simbiose com o social, que também se transforma, a arte, e particularmente a literatura, que é o que nos interessa aqui, se relaciona com o real de maneira ativa. Portanto, a criação literária só pode introduzir a “norma” (FOUCAULT, 1965, p.13)(2)  - no seu interior para desmascarar, denunciando, pelo simples fato de existir como obra de arte, todo tipo de dominação social. É assim que o texto se converte em investigação do real, questionando-o, sem abdicar de sua natureza literária.

A literatura para crianças e jovens pretende alcançar esse mesmo patamar. E consegue em alguns momentos, graças a alguns poucos escritores que revelam o mesmo pulso firme dos grandes literatos. No entanto, a grande maioria dos que escrevem para crianças e adolescentes deixa muito a desejar. É importante que o escritor de literatura voltado para esse tipo de público se inteire das condições que são necessárias para se escrever uma obra de arte. Relegada ao plano de uma literatura “menor”, na literatura infantil, o “estranhamento” - a que nos referimos antes -  tem sido perseguido através de uma visão simplificada a respeito de arte e criação. Essa visão traz em seu cerne a concepção vulgar de que a fantasia e o lúdico, por si só, são mais do que suficientes para se fazer uma obra rica em elementos de criação e consequentemente, de arte. A poética, no seu sentido mais pleno, fica aí então comprometida com um lúdico de gabinete, que através de uma fórmula adequada imprime nos leitores uma atitude de “estranheza” controlada. Ao contrário do pretendido, o lúdico na literatura infanto-juvenil tem ocupado um lugar seguro, destinado ao “escape”, quando as contradições do mundo real não podem emergir, formando uma espécie de invólucro protetor das mentes “imaturas”. É nesse sentido que a fantasia tem sido trabalhada pela literatura infanto-juvenil, indistintamente, inclusive por aqueles autores consagrados até mesmo pela crítica especializada, e que já tiveram oportunidade de confirmar a sua arte através dos prêmios conquistados na área.

Após pesquisar cerca de 80 títulos de livros destinados a crianças e adolescentes, alguns pontos nevrálgicos se repetem com alguma constância. Por exemplo, a maior parte das narrativas onde há um conflito há também uma antecipação da solução, na qual o autor, prevendo os momentos que poderão provocar em seu leitor qualquer efeito incômodo, utiliza o recurso da imaginação voltada para o “escape”. Há, por exemplo, nos Bestiários – livros cujos personagens são animais – o objetivo claro de camuflar muitas vezes os verdadeiros sentimentos dos personagens, caso eles fossem apresentados como seres humanos. Já os textos mais ousados, que abordam temas atuais com seres humanos reais, introduzem o “escape” através do lúdico ou através da exceção. Na exceção, temas de real importância são esvaziados por soluções miraculosas, inapropriadas ao contexto e que servem para imprimir na alma do leitor o “alívio” – ou a “catarse”.  Deixam de representar o geral para particularizar situações baseadas em exceções.  Já o “escape” para o lúdico está presente em quase toda a extensão da literatura voltada para a criança. Esse tipo de literatura tem sido aplaudida pelos especialistas, e a sua qualidade é medida pela maior ou menor capacidade imaginativa do autor em criar situações lúdicas. Em todos esses casos, a tipificação fica comprometida e a literatura enquanto representação literária, deixa de existir.

  Seja de que classe social for, o leitor de literatura infanto-juvenil será invariavelmente conduzido a ler e a pensar de acordo com a classe dominante. Será reservado para ele um universo próprio dentro de um construto permitido. Ou seja, também esse lúdico será aquele que preenche os estados da alma de uma criança específica. Por isso, será destinado a este leitor uma única interpretação da realidade e também uma única forma de compreensão. Por outro lado, a maior parte dos teóricos da literatura rejeitam a “catarse”, acrescentando que o discurso crítico é a maneira ideal do autor viver as contradições, compreender as situações, sem aprisionar-se nelas. A “catarse”, em geral é utilizada em best-sellers, livros de grande tiragem, cujo objetivo principal é distrair o leitor. No entanto, a “mimesis” (identificação) e a consequente “catarse” são uma constante na literatura para crianças. Portanto, a literatura infanto-juvenil não é decididamente uma literatura da “consciência crítica”, nem mesmo da “estranheza”, da “surpresa”, da “poética”,  pois a maior parte das perguntas formuladas – filosoficamente ou poeticamente - tem uma resposta pronta e acabada, expressão, em geral, da “verdade” de cada autor.

 Os contos atuais se já não são tão fantásticos como os contos de fadas, conservam os mesmos atributos míticos e inquestionáveis dos contos de fadas. O cenário foi mudado, os animais selvagens foram substituídos por outro tipo de ameaça como  os carros, mas no nível da narrativa, no nível de uma visão crítica da realidade, os livros atuais, em sua maioria, realistas ou fantásticos, preservam o mundo da criança e do jovem dos questionamentos e das contradições próprias da nossa sociedade. Portanto, na maior parte dos contos de fadas, mas também dos livros com temas atuais, o símbolo do sonho permanece em seu sentido latente, conduzindo a criança a um estado de sonolência lúdica, bem próxima da alienação. Em princípio, pode-se afirmar que somente numa forma muito geral a criança relaciona suas experiências reais com a literatura que lhe é oferecida. Nesse sentido, os livros infanto-juvenis, em sua maioria, servem para camuflar as verdadeiras relações de dominação e poder em nossa sociedade moderna. Com o intuito de divertir o leitor, de formar o hábito de leitura, as mais diferentes licenciosidades têm sido permitidas pelos pais, especialistas em literatura infantil e juvenil, professores, ou seja, os “legítimos” defensores do universo infantil.

Portanto, se o ensino não introduz o pensamento filosófico, se a literatura voltada para as crianças e jovens fica à margem de uma poética realmente emancipatória, o que resta, senão o hábito?


Como criar o hábito de leitura?
 

          Há uma tese sobre educação de meninos, de um autor do século XIX,  e que Jurandir Freire Costa cita em seu livro: “Desde a primeira infância devem os pais disciplinar com todo o esmero o espírito de seus filhos, quando sua alma ainda está dócil e se presta a todas as sortes de impressões – é nesta idade que convém reprimir e domar suas inclinações.”(COSTA, 1979, p. 87) (3)

As más inclinações, prevenidas pela introdução dos bons hábitos, dispensam o uso de castigos recorrentes e os agentes externos. Seus efeitos são duradouros, praticamente invisíveis. Implanta-se gradualmente na “alma dócil”, no corpo “tenro e flexível”, sem deixar marcas perceptíveis. É o que chamamos de criação de um hábito.

Sabemos criar um hábito, o difícil é se livrar dele. Podemos perfeitamente criar o hábito de leitura, já que conseguimos criar com perfeição o hábito de ver televisão, o hábito de escovar os dentes, de tomar banho, de usar roupas, etc. - e são tantos os hábitos que criamos. Produto de hábitos, um indivíduo não sabe nem quando, como, nem porque começou a sentir e a reagir da maneira que sentia ou reagia. Tudo em seu comportamento deve parecer à sua consciência como normal.

Assim é a educação. Aprender a falar, a andar, a responder, a ouvir, a perceber são formas de assimilar conforme a “lei das coisas e a lei dos homens”. Um belo dia, a nossa personalidade aparece estruturada, sedimentada, desenvolvida – e algumas vezes, deformada -  e sequer nos damos conta que tudo isso foi um aprendizado que poderia ter sido de outra ordem. Mas, apartados da arte, ficamos com o prosaico de uma construção pobre. Como dissemos anteriormente, é fácil criar um hábito. O difícil é introduzir na nossa vida aquilo que não é hábito. Aquilo que descobrimos, às vezes tarde, e que é o que realmente conta - o poético da nossa existência. O poético é relegado, dele não se fala, ele não se aprende, já que os nossos professores – pai, mãe, escola – não aprenderam também. O poético é o sentir a vida, é dar um destino ao nosso caminho, é estar filosoficamente cercado pelo surpreendente, que é a própria vida. O nosso destino é aquilo que chamamos de aprimoramento da alma, é a nossa construção interna, a nossa realização como seres criativos que somos.

Sabe-se que a fantasia não pode ser restringida a uma questão puramente etária. Ela é privilégio de toda a humanidade, sem distinção de cor, credo, classe social ou idade. No momento em que determinamos qual o tipo de fantasia se adequa melhor a uma determinada faixa etária, a poética fica comprometida, assim como o olhar de seu criador. Mas a que fantasia nos referimos quando falamos de criança? Como vimos, anteriormente, dependendo do ambiente em que cada um cresceu, a realidade pode tomar contornos diferentes. E a fantasia vai se processar de forma autônoma.

 Para entender melhor o que aconteceu com a literatura infanto-juvenil, vamos nos deter rapidamente na obra de Monteiro Lobato. É só com ele que se inaugura a chamada literatura infanto-juvenil no Brasil. Com a publicação da “Menina do Narizinho Arrebitado”, em 1921, esta sua obra foi um salto qualitativo se comparada aos autores que o precederam. Uma linguagem mais coloquial e criativa, antecipatória mesmo do movimento modernista, sobressaía ao lado de uma visão mais progressista, considerada na época como vanguarda do pensamento nacional. Assuntos como guerra, política, ciência, petróleo eram temas considerados até então inapropriados ao universo infantil, mas que Lobato faz com que sejam discutidos no interior das tramas.

Defendido e glorificado pela maior parte dos educadores modernos, Monteiro Lobato teve sua obra aceita e divulgada, inicialmente pelos mais progressistas e posteriormente pelos ufanistas das causas nacionais. Se de um lado temos um Brasil agrário, rural, conformado às velhas técnicas, às antigas leis que regulamentam a terra, um país recentemente libertado dos grilhões da escravatura, de outro temos uma classe média emergente, que povoa já os centros urbanos, uma classe operária tímida, mas consciente já de sua nova posição no cenário nacional. É esta classe emergente que Monteiro Lobato adota. São as suas verdades que ele defende. Por isso, Pedrinho e Emília são a encarnação do homem produtivo, ousado, necessário ao desenvolvimento industrial, ao crescimento econômico e à afirmação da pujança nacional. Tia Anastácia é a representante desse mundo rural, ao lado de Dona Benta. Tia Anastácia é a expressão da ignorância nesta nova ordem, mas é também a expressão de uma sabedoria popular que pode ser absorvida, num clima de convivência pacífica.


Em Monteiro Lobato:

“houve a incorporação de certas ideias, que provém evidentemente de sua profunda admiração pelo modo norte-americano de vida, conforme escreve Gabriel Cohn em “Um Ianque no Vale do Paraíba” (Versus, SP, 1977) sem que ele as tenha conseguido traduzir em personagens e ações. Por isso, as narrativas têm um conteúdo doutrinário, o que perturba indubitavelmente o efeito emancipador que a caracterização inconformista de seus heróis desejaria alcançar. E tal dificuldade advém da natureza do gênero a que o autor dedicou grande parte de sua existência e o melhor de sua criatividade: é que, para alcançar  o efeito formador e pedagógico, o escritor não pode sofisticar sua mensagem, discutindo suas nuances e consequências, nem tornar mais complexas as personagens e ambivalências, fazendo-os viver crises existenciais, perturbações ou mudanças. Por isso, o programa político de Monteiro Lobato liquida o mundo de seus heróis, sem que estes, que encarnam aquela, possa dar conta do fato, aprová-lo ou contestá-lo. Neste sentido, as personagens acabam por incorporar a própria condição do leitor infantil, a da aceitação e passividade.” ZILBERMAN (1979), p. 19 (4)

 

A maior parte dos escritores de literatura infanto-juvenil no Brasil seguiram os mesmos passos de Lobato. Representantes também dessa mesma classe social, defenderão – mesmo que com uma aparência de vanguarda – as mesmas questões com a embalagem da nossa atualidade. De qualquer maneira, seja na família, na escola, e na maior parte da  literatura voltada para crianças, não temos o componente principal emancipatório da grande arte. Como diz Cohn, estamos limitados pelo “efeito formador e pedagógico”. Estamos impossibilitados de escrever como Balzac, que mesmo sendo um monarquista conservador,  teve a capacidade de criar personagens típicos, envolvidos com a ascensão da burguesia, mas sem qualquer aprisionamento ideológico. Balzac, apesar de seus interesses de classe, e talvez por isso mesmo, cria criticamente, mostrando poeticamente aquilo que é, sem concessões de qualquer tipo. Portanto, entre o prosaico e o poético há um enorme caminho a ser percorrido, extrapolando mesmo o lúdico do universo infantil. Precisamos, como escritores, professores, pais, pedagogos, psicólogos rever os nossos conceitos sobre a educação e a arte destinada às crianças. Precisamos introduzir no nosso currículo o pensamento crítico, filosófico e poético, oferecendo às crianças e aos adolescentes um universo baseado na beleza e na consciência desse belo, na fruição estética e na criação de espaços em que a nossa cultura possa ser revigorada, mesmo que diferenciada pelos muitos segmentos sociais que diversificam a nossa arte.

Precisamos daquilo que nos torna ávidos de mais poesia, essa forma de falar sem dizer, de escutar sem ouvir, de imaginar sem fazer. O poético cria o hábito de leitura, e não o contrário. Precisamos sair do prosaico das novelas do cotidiano e cair no poético da nossa própria existência. Cair no poético é a expressão correta, porque o poético funciona como uma armadilha. Acontece de repente e aí é que está a grande descoberta. Quando se lê um livro, por exemplo, de repente podemos encontrar dentro dele a poesia e nos tornarmos leitores. Estamos vivendo a nossa vidinha, e num belo dia, algo diferente acontece dentro da gente. Como diz Vinícius em um dos seus poemas: “O Operário em Construção”. Nele, um operário - que empilhava tijolos e construía casas – não sabia por que um tijolo valia mais que um pão.

“Mas ele desconhecia

Esse fato extraordinário:

Que o operário faz a coisa

E a coisa faz o operário.

De forma que, certo dia

À mesa, ao cortar o pão

O operário foi tomado

De uma súbita emoção

Ao constatar assombrado

Que tudo naquela mesa

- Garrafa, prato, facão –

Era ele quem fazia

Ele, um humilde operário,

Um operário em construção.

Olhou em torno: gamela

Banco, enxerga, caldeirão

Vidro, parede, janela

Casa, cidade, nação!

(...)

Um mundo novo nascia

De que sequer suspeitava.

O operário emocionado

Olhou sua própria mão

Sua rude mão de operário

De operário em construção

E olhando bem para ela

Teve um segundo a impressão

De que não havia no mundo

Coisa que fosse mais bela.

 

Foi dentro da compreensão

Desse instante solitário

Que, tal sua construção

Cresceu também o operário.

Cresceu em alto e profundo

Em lardo e no coração

E como tudo que cresce

Ele não cresceu em vão

Pois além do que sabia

- Exercer a profissão –

O operário adquiriu

Uma nova dimensão:

            A dimensão da poesia.” (LYRA,Pedro,1983, p.128) (5)

              

         E esta talvez seja a nossa melhor possibilidade - um vírus benéfico que se alastra sem se importar com as classes sociais, com a faixa etária, com nada do que é politicamente correto. Essa mesma poesia que faz a nossa existência ter mais sentido, ter mais consistência. E quando falamos poesia, nos referimos à poética no seu sentido mais amplo, esse estado de espírito enlevado que soprou na alma dos mais diferentes artistas – nas artes plásticas, na literatura, na dança, na música, na medicina, na tecnologia, no pedreiro, na vida.

        Como podemos introduzir então o poético nas nossas vidas, na vida dos meninos de rua, dos traficantes, da polícia? Na vida dos pais e professores, na vida dos passantes, dos caminhantes, dos educadores, psicólogos e pedagogos? Na vida dos cientistas, dos pesquisadores, dos que estão ávidos de ganância, corrompidos pelo trabalhado alienado, pela selvageria dos grandes centros urbanos, pela necessidade obscura do ganha-pão?

        Essa é, para todos nós, a grande questão. E a resposta está na própria literatura infanto-juvenil – já que ela se propõe a ser o primeiro contato do pequeno ser com a arte - e na qualidade poética de suas páginas. Assim como deveria estar nas salas de aula, nas casas, nas ruas, na televisão, nos cinemas, nos teatros, no local de trabalho, em qualquer lugar onde houvesse pensamento e a sensação de que somos exemplares únicos e criadores singulares da nossa própria existência. O pensar, o estar, o caminhar filosófico e poético foi a base de algumas civilizações, inclusive a ocidental. Está na hora, portanto, de extrair da nossa própria história o que sabemos, mas que esquecemos quando priorizamos o imediatismo dos bens materiais.

Nesse caso, a literatura infanto-juvenil tem em si um compromisso dobrado. Além de procurar ser uma grande arte, deverá introduzir nas escolas, nas casas, nos corações dos pequenos e dos jovens o olhar do “estranhamento”, o “olhar poético”. Deverá abandonar o lúdico prosaico para oferecer obras de conteúdo realmente original.

         Por isso, hábitos são dispensáveis. A não ser que o pensamento filosófico e o olhar poético sejam hábitos que possam ser adquiridos. Mas se conseguirmos introduzir nas crianças e adolescentes a descoberta desse olhar que nos torna mais vivos e comprometidos com o fato de estarmos aqui nesse planeta por um tempo tão mínimo, aí sim estaremos equipando esta nova geração do instrumento necessário para a formação de novos leitores. Estaremos equipando cada um deles com o único sentido da arte – a poética como algo revolucionário.
 

NOTAS


 

(1)   COSTA, Jurandir . Ordem médica e norma familiar.

(2)   FOUCAULT, Michel.  História social da criança e da família

(3)   COSTA, Jurandir . Ordem médica e norma familiar

(4)   ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola.  

(5)  LYRA,Pedro. Vinícius de moraes - poesia

 

BIBLIOGRAFIA


 

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GANEM, Eliane. A cor do negro: comunicação transpessoal na arte, na ciência, na espiritualidade. Rio de Janeiro, Booklink, 2006.

          _____________. Coisas de menino. Rio de Janeiro, José Olympio, 1986

         HELD, Jacqueline . O imaginário no poder. São Paulo, Summus, 1980

KHÉDE, Sônia Salomão . Literatura infanto-juvenil; um gênero polêmico. Rio de Janeiro, Vozes, 1983

KONDER, Leandro . Os marxistas e a arte. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1967

LYOTARD, François. O pós-moderno. Rio de Janeiro. José Olympio, 1986

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SANDRONI, Laura .De Lobato a Bojunga. Rio de Janeiro, Agir, 1987

SEGAL, Hanna . Introdução à obra de Melaine Klein. /s.n.t./

ZILBERMAN, Regina . A literatura infantil na escola. São Paulo, Global, 1981

 

O Predador - Crônica

O Predador
 
 
Dedico aos predadores, aqueles que corrompem a existência.


É excremento o teu pavor quando me olha, perdido dentro da tua pequena visão de mundo. Cego, de alma pesada, largada aos seus próprios estragos, esmerilhada pelo correr dos anos que te poluíram. O teu abandono é estudado, a tua vida viciada, morta e desolada como os escárnios que o universo lança em teu rosto pouco sofrido. De uma lentidão sem tamanho, como os rinocerontes que vociferam à própria passagem, pois nada vê que não seja o rabo que ostenta, miserável. Ínfima inquietude de um coração debochado. O que sofre, senão a tua insônia lentamente construída? Desolado, alquebrado, disfarçado, sem sequer encarar a sorte que te lança um milhão de raios coloridos, de pedras preciosas que te empanturram o ventre, como o porco come as pérolas e arrota os vermes quentes que defloram os órgãos, a pele, a lassidão dos teus olhos corrompidos. É asco o cheiro que sai dos podres do teu intestino preso. É arroto venenoso o teu carinho, com as patas voltadas para a imensidão sem tamanho de sua alma vagante, que se mira num espelho retorcido. O que vê?, se é que enxerga algo que não seja a catarata do teu próprio olho. O que vê?, senão o teu terror misturado ao teu cheiro, à tua podridão, como se cobras e lagartos convivessem no mesmo espaço da tua imensa barriga. É asqueroso o teu arrogante ato de dormir nos braços da amante antes de partir, como algo conquistado e fim. É demasiado o descaso das cobertas largadas contra as paredes vomitadas pelo teu ronco. É perverso o teu amor leitoso, o teu rancor pecaminoso, o teu afeto que seduz a presa entre  teus braços já saciados, qual um vampiro anseia até a última gota um outro espírito. Travestido em homem, animal azeitado de pequenas promessas, arde teu semblante em minha mente, ainda presente.  Ai, horror é a lembrança de ti em minha pele untada de perdição descontrolada, de injúrias que lancei, eu mesma, em meu próprio rosto. No tapa que desabei em minha própria cara. No desencontro das noites em que não dormi, sacudida pela ausência imensa de mim. Eu te perdoo, como quem perdoa as baratas. Não te mato, deixo que a tua desova seja procriada nas privadas sujas do prédio onde habitas. É denso o destino que você mesmo cava como se cavasse além do poço profundo em que vives, distante do mundo, distante da vida. É apropriada a tua bizarra sintonia com o que há de mais vulgar, a tua destemida simpatia pelos infelizes, os iguais, os acabrunhados da sorte, os azarados, os desafortunados, os imbecis, os mortos. É tua sina ter me encontrado, sou a perseguição, a intromissão, o abandono, a compreensão, a saúde, o desvelo e o aniquilamento poderoso do meu escárnio em tua alma que se fecha acobertada, e foge protegida. Eu sou o despertar desse teu eu acorrentado, o provável aniquilar do teu ego ressentido. Sou o teu obsessor, sou o amor, o único capaz de entornar um pouco de paz em tua alma perdida. E você foge, qual inseto desprovido de senso, lançando as antenas contra o seu próprio muro erguido, correndo de si mesmo, sombra do teu aniquilamento. Foge, desgraçado. Foge da única possibilidade. Mesmo que num relance perceba a minha boca grudada no teu pescoço, sussurrando “Acorda, Lázaro!!! Levanta!!!, nem assim você se desapega da tua única verdade, e continua absolutamente inerte na mais quieta mesmice. E fico triste por mim, por ter usufruído da sua presença em minha vida, esmagada pelos seus braços excessivamente musculosos que me oprimiram. Nada ficou que não fosse um pequeno aceno de despedida, como as bandeiras manchadas de sangue após uma guerra perdida. E me despeço do que fui antes. Do meu jeito ingênuo de olhar o mundo, do meu amor tão oferecido, da minha alegria quase infantil. E aceito o infortúnio de ser uma nova mulher, mais sarcástica, mais irônica, mais desconfiada, desorientada, desconhecida. E me vou, com o resto da humanidade, igualada à grande massa dos vencidos, por estradas pouco confiáveis, sozinha, estranha, mal amada, desiludida, cansada e sofrida. Dói essa imensa ferida que não fecha, como se ficasse aberta à espera dos abutres, que me cercam, sentindo o seu cheiro ainda recente em minha pele, agora ressentida. Pois então, leva tudo o que restou de ti, e me devolve apenas o que é meu na justa medida do que se multiplicou e te ofereci. E foi tão grande o milagre da multiplicação, que quero de volta a saciedade da tua alma repleta do meu deus interior, a profusão dos meus sentimentos que te alimentaram, minha beleza,  minha lealdade, a minha audácia destemida, o meu aconchego no silêncio do meu quarto, a minha paz de espírito.

Marina do Poeta - Crônica

Marina do Poeta


 
Eliane Ganem
 
 
      Na Marina do Poeta, os seus olhos me encontraram, me deitaram sobre a relva fina que brotava aos nossos pés, logo adiante, como se o mar fosse um tapete de grama prateada, onde a lua desfilava intacta e bela. Foi rápido o tempo que ficamos na espera, da inebriante vontade de deitar no silêncio das noites descobertas. Sob o ardente encontro dos nossos sonhos amantes, a lua, minguante, se estirava em nosso colo, cansada de tantas madrugadas repletas de versos.

Fiquei devendo talvez a possibilidade de você me amar demasiado. Fiquei devendo talvez a possibilidade de deitar com você no espaço e dançar sobre o tapete deslizante do mar, equipados com as asas dos anjos que nos amparavam alegres. É um desperdício deixar que as sombras do nosso passado tão iluminado, se perca. É um desperdício até mesmo tentar aprisionar aqui - entre palavras tão pouco fiéis - o nosso caso desfeito.

Pena que tudo seja tão apavorantemente fugaz, tão infinitamente pequeno, e que você tenha permanecido como o melhor dos amigos deste ano inteiro. E que você tenha permanecido como o melhor dos cativos desse encontro, do qual conservo o seu cheiro, o meu abandono, o seu medo, o terror em te perder quando você vinha ao meu encontro, o seu jeito de homem dengoso, o meu estranho desejo de querer te ensinar a viver – como se eu soubesse. Me lembro também da sua vergonha, como se no conforto dos meus braços você expusesse pedaços, que às vezes interrompiam nossos afagos tão íntimos para se estender em íntimas conversas. Me lembro também do seu pequeno apartamento e o nosso cheiro que impregnava as cobertas, as madeixas molhadas do suor dos meus cabelos, dos seus cabelos, dos seus abraços misturados aos meus afetos. Me lembro também dos telefonemas extensos, das vezes em que corri na sua direção como se você fosse um antigo companheiro.

Ah, como a lua ficou impregnada de vontade, como se dela tivesse sido arrancada a nossa parte nesse pequeno espaço que ocupamos. Como se todo o universo fosse marina repleta de nós. Como se todo o espaço entre o mar, a areia onde deitamos a nossa história, e o nosso olhar que mirava as estrelas com o conforto plácido dos que erram, ficasse banhado pela luz azulada que a lua ainda lança em minha memória. E é você, clareado de um rompante de amor singelo, de uma enternecida história que jamais acaba, de um adeus que ficou no ar, é você que ficou parado como os acenos das imagens de infância, que ainda permanecem. Me lembro das nossas melhores noites de rimas, do pessoal que vinha nos assistir, como se o motivo principal fosse usufruir do amor que rodeava o nosso encontro, e não os versos que deveriam levar tanta gente ali. Era bonito ver quando você me encontrava, quando o seu perfume tocava o meu repleto de mulher. Então tudo sumia, o chão, a multidão, o microfone, os risos, as palavras, os desencontros dos que partiam, a balbúrdia dos que chegavam. Nem mesmo o mar ficava, quieto demais, talvez esperasse por uma deixa, uma onda que pudesse sobrepujar o nosso silêncio amoroso, o carinho ousado do nosso olhar um no outro, o brilho exagerado que contornava a todos, como se todos estivessem partilhando do imã vibrante que nos aproximava. Somente a lua ousava permanecer, destemida e cúmplice , e era tanta ousadia, tanto olhar surpreendido, tanta falta de juízo, que até os versos se perdiam diante da real poesia que rolava das nossas bocas que se beijavam.

E seria mais amplo esse nosso encontro, se tivesse a mesma dimensão do intenso transe que passamos juntos diante da lua, debaixo das cobertas do meu quarto. Só que, de repente, e apenas só de repente, algum motivo escuso te afastou de mim. E então, quando o passado já havia deitado seu manto desesperado, e a lua tentava não se esvair de todo, nada mais havia na marina que não fosse a ausência de um possível encontro. E me defrontei com o seu jeito infiel de viver pela metade o que a vida lhe dava com um transbordar de excessos. E também com o meu sôfrego dilúvio interno, me deixei poupar por inteiro do teu inconveniente jeito de se afastar de mim. Os desencontros de uma situação que acabava, deixando lugar a uma cruel despedida, como se virar amigo fosse coisa pensada e decidida. E ficamos com essa interrupção nos maltratando, com essa rapidez distorcida, com essa atitude que mascara a nossa verdadeira vontade de viver o que ficou perdido.

Tanto tempo depois, e eu aqui no devaneio do que podia ter sido. Tanto tempo, tanto descaso, tanto ato esquecido, tanta palavra vertida, tanto verso abandonado, como os mendigos que abandonam suas tralhas. Economizamos na poesia, ávidos de agonia. Talvez seja esse o meu desmazelo diante do olhar que te lanço. Talvez seja esse o confronto que não ousei desvendar com a tua partida. E a lua, velhaca, agora ri em meu rosto, escarnecida. Vem – ela me diz - mais um pouco, e o teu corpo lamberá os escombros do infortúnio, enquanto a tua alma rendida e seca verterá em direção ao acaso, iludida por antigas palavras vazias. E quem sabe, esquecido o desprezo contido que lançamos um em direção ao outro, o nosso amor um dia possa resplandecer como os lírios na lama pútrida emergem em direção à lua, novamente atraídos. E quem sabe, os versos que não deram em nada, possam ser aproveitados em outra obra, talvez mais perfeita.

Por enquanto, muito longe do adeus, devo me despedir até qualquer outro dia, quando eu puder erguer novamente o olhar e encontrar ao meu lado a sua mão, o seu jeito carinhoso de me beijar o rosto, o sorridente encontro da nossa natureza que ama além do que deveria, a sua impaciente incompreensão de si. Estender o braço, rodopiar como as crianças envolvidas no abraço, me alegrar apenas com a nossa eterna despedida. E abandonar a esperança de te ter novamente em minha cama, rejeitando a lua que distraída passa - como se eu não fosse mais o seu alvo preferido - e mais uma vez esquecer as antigas possibilidades, me deter em seus braços e chamá-lo de amigo.